Xavier de Oliveira, fala do filme “Amante Muito Louca”, de Denoy de Oliveira

Vamos falar do filme do seu irmão, o “AMANTE MUITO LOUCA”.

AMANTE MUITO LOUCA - Tereza Raquel - final do filme

É um filme heroico, e te digo, nasceu com predestino, com função, dar um respiro na empresa. Heroico também porque o que ele sofreu na censura não tá no Gibi. Saiu a fórceps. Falando de lucro o “ANDRÉ A CARA E a A CORAGEM” foi aquém do que a gente pensava, deu apenas para montar aquela estrutura da distribuidora, aquela loucura toda, já falei disso, quer dizer, o lucro foi engolido nessas coisas: sustentar a empresa, a nós, e das sobras criar a tal distribuidora. Tudo isso aconteceu. Mas ficou a preocupação: e o próximo passo? A ideia do AMANTE, quer dizer, a ideia da história surgiu com o Denoy e com a mulher dele na época, a Fernanda. Eles que criaram. Só dei uns pitacos no roteiro. O drama real era montar a produção, aí é que dava o nó… Por sorte, eu tinha um projeto aprovado na Embrafilme…

… O “Banana Kid, o Super-herói Tropical”, fala um pouquinho dele…

BLOG - AMANTE - Tereza Raquel - final do filme-aLogo que lancei o “ANDRÉ”, aprontei essa história. Uma comédia, tempos depois esse roteiro foi premiado. A história era a seguinte: dois super-heróis brasileiros, os dois fantasiados, Banana Kid e seu companheiro de ação, o jovem Carcará, com toda a precariedade deles, com os superpoderes em petição de miséria — eles reivindicam o tempo todo poder voar, mas a Organização, os Mandachuvas negam… Mas a história é essa dupla em confronto com a bandidagem, uns bandidos já usando a tecnologia internacional, armas a laser — um duelo desigual, mas os super-heróis conseguiam vencer com criatividade, esperteza — é o próprio povo brasileiro sempre se safando — mas no final eles cansam dessa vida, cansam de ser super-heróis, se tornam gente comum — ele, Carcará, adere ao movimento hippie, na época, a grande pedida dos jovens, e o Banana Kid, de terno e gravata, vira um burocrata, Se despedem…

Bem legal…

BLOG - AMANTE - Tereza Raquel e Claudio C. e CastroEu tinha aprovado esse projeto na Embrafilme… A Embrafilme tinha sido criada no final de 69, e isso foi em 71/72, mas aí eu consegui substituir o projeto do “BANANA KID”, pelo do Denoy, o “AMANTE”, nas mesmo modo de coprodução, quer dizer, a Embrafilme teria 30% do filme, e troquei o diretor — abri mão do meu projeto por duas razões, a primeira e maior, o Denoy estava numa posição meio incômoda na LESTEPE, ele já havia feito duas produções, o “MARCELO”, e o “ANDRÉ”, e sem querer se repetia o que ele tinha sofrido no Opinião, não havia espaço pra ele como criador… A outra razão é que o “BANANA KID” era um filme bem mais caro, a gente não tinha como bancar os 70%. Pra dizer a verdade, nem mesmo no “AMANTE” a gente tinha…

A Embrafilme bancava uma parte…

… É, os 70% eram nosso. E aí, já viu, começava o problema: arrumar um sócio, um cara que entrasse com 30% em grana. Mas estava difícil, o Denoy era desconhecido, nunca tinha dirigido um curta, nada…  O roteiro dele era bem comercial, mas estava complicado arrumar alguém que entrasse na jogada. Tentei produtoras, e nada… Até que um belo companheiro, o diretor Victor di Mello, já falecido, foi lá na produtora e me disse: “Xavier, te arrumei um sócio. O Jarbas. Vai lá na empresa dele e acerta.” E acertamos. Ele seria o distribuidor…

Jarbas Barbosa…

É, o Jarbas Barbosa, também falecido. Mas fazer o “AMANTE” foi um lance calculado, pode crer. A gente tinha que fazer um filme com chance de sucesso, mas de  conteúdo, de visão crítica, não podia ser uma comédia idiota como se fazia na época, e hoje também, um filme inútil, vazio — o Denoy jamais faria isso. Ele que vinha do CPC da UNE, do Grupo Opinião, um cara comprometido com causas sociais…

E como é que foi o filme?…

Um sucesso, cara!

Conta aí como foi a censura:

BLOG - AMANTE - Tereza Raquel - teatro revistaAquilo de sempre. Foi assim: de Goiânia eu fui pra Brasília com uma apresentação pra um censor, um rapaz chamado Reginaldo, um camarada gentil, educado, e que era muito amigo do meu amigo de Goiânia. Procurei o Reginaldo, me apresentei, dei entrada no processo — ele ia tentar me ajudar. A censura estava muito dura na época, tinha engrossado mais, isso foi em 1973. A primeira comissão assistiu e não deu outra: interdição, com o Reginaldo e tudo. Cada membro da comissão dava seu voto, a maioria votou na interdição do filme, que tinha um agravante desgraçado no ponto de vista dos censores: mexia nos valores da família. Não era tanto ter cenas picantes, mas a ideia, a estrutura, essa os caras não engoliram, acharam pernicioso o filme. Nós sabíamos, era um filme de observação crítica, mas não pernicioso. É claro, não era uma comédia inocente, burlesca, de piadinhas, mas tinha nela um confronto, sim. Com os costumes, com a hipocrisia. Mas os caras pegaram o filme pelo lado deles doente, e meteram a caneta vermelha. Outra comissão foi assistir, e o Reginaldo também estava nela. De novo interdição. O Reginaldo veio conversar comigo. Ele não tinha mais como defender o filme nas comissões, era voz no vazio, então ele veio me dizer, não ia fazer mais parte de outra comissão, que saia fora, que podia prejudicá-lo, e podia mesmo. O empenho desse rapaz foi sem qualquer vantagem pra ele, apenas pela amizade que tinha pelo tal amigo de Goiânia. Dei razão a ele, claro, e segui em frente. Outra interdição e o filme ia pro brejo. A verdade é que o “AMANTE MUITO LOUCA” causou problema mesmo na censura, tudo pela interpretação que davam a ele. Não era como na pornochanchada, sempre oca, de inteligência mínima — a pornochanchada não tinha problema nenhum: a censura cortava a putaria grossa, o produtor já sabia de antemão o que ia ser cortado, e ponto final, um abraço, nenhum problema pro governo. Não era o caso do “AMANTE”. Havia um pensamento na censura, paranoico pra caramba, de que as esquerdas destroçadas na luta armada resolveram mudar de trincheira, migraram pro teatro, pro cinema… Como não podiam lutar de peito aberto, o alvo era destruir a família, os valores da família, que é a célula do sistema. Uma loucura, claro, uma maionese alucinada, e que deve ter sido importada sei lá de onde. E o “AMANTE” se encaixava nisso feito uma luva. O filme questionava os valores da família, a hipocrisia, a farsa familiar, o machismo, e também somava aí o fato de ter sido escrito e dirigido pelo Denoy, já fichado na Polícia Federal por causa do CPC da UNE, Grupo Opinião, com duas prisões políticas… Enfim, o circo estava armado contra o filme, e te digo: depois de um mês em Brasília, com os caras usando a técnica do volte daqui a dois dias, volte no final da tarde, volte semana que vem… O cansaço me bateu forte, o esgotamento, em Brasília se marcam pra daqui a quatro horas, você não tem aonde ir, é uma cidade anti-pedestre, anti-humana, você caminha, caminha por aquelas ruas, é um vazio humano que puxa vida. Daí que me esgotei… Faltava o último recurso, a última comissão. Aí pedi pro Denoy ir pra Brasília me substituir, apesar dele ser manjado, mas eu já estava desgastado, cansado de falar com um, com outro, caminhar naqueles vazios, não aguentava mais. O Denoy encarou então o último ato. E conseguiu a liberação do filme, com 16 cortes. Meteram a tesoura adoidado. Eu vou ler os cortes só pra constar do nosso papo. Começa assim:

Atenuar as palavras de baixo calão trocadas no diálogo mantido no início entre Brigite e Estrela D’alva. Cortar a fala de Brigite, também no início, a seguir: “Love story é o cacete”, bem como a referência feita ao Estrela D’alva: “Seu prega frouxa”. Brigite: “Ainda arrebento os cornos dessa bicha”. Na saída pra Cabo Frio, quando Angélica diz ao irmão: “Ridículo é você, seu viadinho”. Cortar outra expressão, como “vá à merda”, verificada ainda no caminho de Cabo Frio. Cortar cena em que Brigite se encontra pela primeira vez com Amâncio, em Cabo Frio, agarra-se a ele e faz o gesto característico de cópula. Conservar apenas o início e o fim da cena em que Amâncio está no quarto do hotel com Brigite. Na cena em que Brigite tira a roupa na praia, cortar todas as cenas que apresentam a região pubiana. Cortar na fala de Brigite: “E na bunada não vai dinha?” e “Desbundar”. Cortar na cena do quarto com Brigite e Júnior toda a parte de sedução, como segue: “Ula-lá, neném. Que é que é isso? Choriço! Tá bem temperado, garotão”. Brigite (se referindo ao seu corpo): “É todo teu… todinho teu… Cada foto uma bimbada… Tá legal?” JUNIOR: “Já bati mais de vinte…” BRIGITE: “Taradão” “Mas não são essas não… Quero aquelas. As do velho”. E mais as cenas em que Brigite agarra Júnior e põe a mão entre suas pernas. Quando o Júnior sai do quarto e Brigite lhe diz: “Brochou, é?”. Na praia, cortar as falas de Brigite: “Com essa sacanagem toda…”. Fala de Mauro para Júnior: “Eu comi tua irmã”, e logo depois um figurante gritando: “Oba, porrada”. Na lancha, cortar a expressão “chute no saco”, na praia “sacana”, e “sacanagem”. Corte na fala de Amâncio (5º rolo): “Você é uma putinha”. No teatro revista, início, corte na aparição de Estrela D’alva: “Alô, papaizão”.  No escândalo de Brigite, cortar as falas: “Aqui, ó. Só se for na orelha. Galinha”. A Júnior: “Já pediu licença pra dar uma bimbadinha…” Como consequência desse corte, sai o momento em que Brigite balança o braço. Seguindo: “O que é pra depois o tarado vir se descarregar pra cima de mim”. Interiormente então a cena fica cortada nas falas e gestos. Teatro Revista no início: “Garanto que seu foguete vai subir”. Brasília, 18 de abril de 1974. Assina: Rogério Nunes, Diretor do DCDP, e Manoel Francisco C. Guido, Ch. do Serviço de Censura – Substituto.

A censura do filme é na verdade de 06 de Novembro de 1973. Esse certificado aqui desse ser uma nova via. É isso aí, meu…

…Impressionante…

Você vê, os cortes têm muito a ver com aquele negócio que eu falei, da Censura preocupada com a destruição da família, da técnica comunista. Os cortes, muitos são de costume, não são de coisa picante, imoral, acho que havia mesmo aquela paranoia. É uma coisa de louco, esse documento mostra bem o momento que a gente vivia. Chega a ser coisa histórica, sei lá, um pesquisador, daqui a vinte, trinta anos, checar como era a censura… A gente ler esse documento hoje, março de 2015, chega a ser hilário, e é um filme pra maiores de 18 anos…

 

Cortar “desbunde”, “galinha”, “só se for na orelha”, “porrada”, “bimbadinha” — é brincadeira…

BLOG - AMANTE - Tereza Raquel no hotel - meio do filmeVocê sabe, a histeria não estava só do lado deles, não — do nosso também… A gente vivia em pânico: “será que vão cortar isso”. “Isso pode? Não pode?” Era uma autocensura que putz! — uma coisa triste… O artista criar já com a tesoura sobre a sua cabeça. É terrível! É difícil dizer pras novas gerações a desgraça que foi isso. Criar já assustado. Medo disso, daquilo… Lembro que o Jarbas, antes de eu ir pra censura, pra boca do lobo, assistiu o filme, aí entrou em pânico, começou a delirar… Corta isso, corta aquilo… Não fiz nada disso, lógico, ele tinha medo da interdição. Aí me pediu também: “corta aquela parte que a Tereza grita: é foda”. É “foda”? — estranhei, eu não lembrava. Mas ele insistia: “Na beira do mar, naquela briga de praia, ela grita: é foda! É foda!” Aí lembrei, e disse pra ele: Jarbas, ela grita: “afoga!” Não tem nada de “foda”, é “afoga!”. A gente vivia conturbado.

Mas fala da filmagem, da Tereza, do elenco…

Quer dizer, em termos de produção, a gente tinha uma equipe mais bem montada, mais recurso. O Denoy tinha muito conhecimento no meio teatral, de atores, ele sempre me ajudou muito nesse aspecto, ele conhecia as pessoas… No caso da Tereza Raquel, ele já conhecia ela da peça “As Aventuras de Ripió Lacraia”, do Chico de Assis, eles trabalharam juntos. Conhecia também o ótimo Cláudio Corrêa e Castro, o próprio Jô Soares, o Stepan, cria da casa, que fez um belo trabalho, a Mariza Sommer que foi uma revelação, uma atriz muito espontânea, a Beatriz Veiga, um atriz já de renome, o Danilo Augusto, o Carvalhinho, atores de muita quilometragem no teatro de revista, e o muito conhecido Mário Petraglia,  quer dizer, o Denoy não teve dificuldade de montar o elenco. O Jarbas encrencou com o nome da Tereza, encrencou.

BLOG - AMANTE - Tereza Raquel - Jo Soares - Danilo Augusto - te

 

Ele tinha uma ideia diferente da amante, da personagem, ele achava que tinha que ser uma Índia Potira, uma chacrete no programa do irmão dele, o Chacrinha, imagina, que eu saiba, nem atriz ela era, tivemos uma discussão por causa disso, discussão braba, eu defendia a Tereza, claro, tinha que ser uma grande atriz ali — depois do filme pronto ele se convenceu. O Jarbas era bom sujeito…

O papel dela é impressionante…

BLOG - AMANTE - Tereza Raquel - final do filme - bA Tereza é uma das maiores atrizes que já tivemos. Que explosão de talento! — impressionante. A garra que aquela mulher deu à Brigite… Ela ganhou o prêmio de Melhor Atriz em Gramado, “Coruja de Ouro” — naquele ano não tinha pra ninguém. Acho que a atuação dela é coisa pra sempre, antológica. Às vezes me lembro dela —  como estará hoje? Por que sumiu? O último trabalho que vi dela foi na novela da Globo, “Que Rei sou eu”,  me lembro duns closes, um rosto expressivo, extraordinário.

Mas o problema da filmagem, você perguntou, o problema é que a maior parte do filme se passava em Cabo Frio e na praia do Peró, onde o Amâncio, o gerente de banco, tinha casa, e naquela época não havia a Ponte Rio-Niterói, a travessia dos carros era de barcaça. Você ficava horas na fila pra atravessar um carro. Os atores vinham na barca, a gente pegava eles em Niterói e levávamos pro Peró, ou pro centro, em Cabo Frio, era uma pedreira, cara, imagina, pegar um ator, levar o outro, nossos carros se cruzavam na estrada, mas fora isso, tudo bem, a filmagem foi normal, no prazo certo, nós tínhamos um diretor de produção muito capaz, brilhante mesmo, o Chris Rodrigues, com talento grande pra organizar, conseguir coisas, tipo hotéis, carros, tudo na base da permuta, sem ônus pra produção. O fotógrafo foi de novo o Edison Batista, terceiro longa que ele fazia com a gente, e fez um belo trabalho.

Mas conta: o Denoy fazendo sua primeira direção em cinema…             

Isso me preocupava pra caramba, sinceramente. Dava frio na barriga. Pelo que eu podia assistir na filmagem, estava tudo bem. Ele seguro, sabendo o que estava fazendo, com os atores… Mas me preocupava — como estão os copiões?… A gente filmava num lugar complicado, até a Líder revelar e copiar os negativos levava uns 3 dias pra se assistir, era tempo demais! Finalmente chegou pra nós a primeira remessa. O Chris arrumou um cinema pra gente assistir em Cabo Frio. E fomos lá. Meu coração batia forte — uma direção ruim, cenas sem continuidade, movimentos errados… — isso seria a ruína de tudo. Mas felizmente, quando assisti às primeiras cenas, sequência difícil, me acalmei — os movimentos da câmera, os cortes, a direção dos atores, enquadramentos, estava tudo sensacional. Um alívio. Pensei comigo: taí um puta diretor!

É, o filme emplacou…

BLOG - AMANTE - Tereza Raquel e Stepan NercessianE como, cara! Vou ler aqui a montanha de prêmio. Escuta só: Festival de Gramado, 1974. “Melhor Diretor”, pro Denoy; “Prêmio da Crítica” de melhor filme, “Melhor Atriz” pra Tereza, “Melhor Coadjuvante”, pro Stepan Nercessian… E depois: “Coruja de Ouro” de melhor atriz pra Tereza; “Prêmio Governador do Estado de São Paulo”, melhor diretor pro Denoy, “Melhor Atriz”, pra Tereza de novo, prêmio da A.P.C.A. É prêmio pra cacete! E olha só: lá em Gramado a gente era azarão. Concorriam “Vai trabalhar vagabundo”, “São Bernardo”, “O descarte”, do Anselmo Duarte, e outros — tudo peso-pesado.

E a bilheteria?

De novo o que falei do “ANDRÉ”: podia ter ido melhor. Rendeu bem, foi sucesso, mas o filme tinha garra, podia ir mais longe. O Jarbas lançou na cadeia do Condor, que não era top de linha. E o filme tinha força, superpremiado… Depois eu soube, ele pegou na Condor um avanço sobre a renda, e isso atrelou o filme aos caras. Uma pena. Você vê, mesmo assim o filme teve um fôlego danado… Conseguiu dar uma equilibrada na LESTEPE.

E depois, o que que veio no rastro do “AMANTE”?

No rastro do “AMANTE”? O mais importante — o Denoy ter se colocado com um grande diretor. Não era mais o estreante. E muito premiado até. Com talentos que saltavam aos olhos: ele dirigia bem atores, tinha um cinema ágil, bons movimentos de câmera… E mais que tudo: conteúdo. Há nos seus filmes, em todos, sempre uma reflexão, uma visão crítica, e, ao mesmo tempo, são filmes comunicativos, humanos. Mas não sei se ele não tivesse tantas amarras ideológicas se não teria voado até mais alto. Talvez esse lado dele tenha reprimido em parte sua criação.

Sobre os atores, ele diria pro Globo, em 5.4.74:

BLOG - AMANTE - atriz Mariza Sommer  “Os atores para mim são básicos. Procuro dar o máximo de liberdade pra eles. … Na cena do escândalo da Brigite, por exemplo, eu disse à Tereza Raquel que, dentro de um esquema mínimo, ela se deslocasse à vontade. E falei pro câmera: te vira! Acho isso mais enriquecedor. O que eu procuro fazer, isso sim, é discutir o máximo que posso (com os atores). E daí vou procurar surpreender uma verdade cinematográfica. Mas o importante é que o sentido esteja correto, verdadeiro. Eu procuro a beleza, mas como consequência de toda essa elaboração”. .  

 

No lançamento em Porto Alegre, ele comentaria com o jornalista:

 

: “… o “AMANTE” é um filme incômodo. Pega a classe média. A Brigite, personagem da Tereza Raquel, é um elemento marginal a ela, e, embora a enfrente, no fundo ela gostaria de pertencer à burguesia. Pela sua comodidade, segurança”.BLOG - AMANTE - Beatriz Veiga - final do filme

E diria da história:

BLOG - AMANTE - Tereza Raquel e Jo Soares - teatro revista“A família, onde gira a história, é bem assentada. Mas dentro dela há um câncer roendo, que é a felicidade de viver. O que existe são fugas. O pai tem um trabalho desinteressante e um sonho: a aposentadoria. Quer dizer, os horizontes são muito limitados. A fuga dele é uma amante colorida. São os nossos sonhos, pobres na sua essência, rodeados de artifícios. As pessoas fogem, escapam, representam. Por isso, o filme começa e termina , num teatro revista”.

 

Fala rapidinho das locações.

A casa do Amâncio, do Cláudio, era ali no alto da Gávea. Uma boa parte do filme foi em Cabo Frio, e no Peró, onde ficava a casa de praia do Amâncio, onde acontece aquele quiproquó final, o escândalo da Brigite. Filmamos no areal de Cabo Frio, na estrada antiga Rio-Cabo Frio. Filmamos em frente ao Hotel Helena, que hospedou a equipe, e em outro hotel de lá. Também em frente de uma agência de automóveis, em São Cristóvão, agência que nos cedeu umas duas viaturas. Naquela época, coisa de quarenta e poucos atrás, havia essa chance da permuta. A gente conseguia algum produto pro filme, ou serviço, em troca de uma filmagem na porta do estabelecimento, ou dando evidência à marca da empresa — era coisa usual no cinema.

Você quer falar mais alguma coisa do “AMANTE MUITO LOUCA”?

Sim, pra encerrar. Há passos certos que a gente dá na vida. O “AMANTE” foi um. Não sei se teríamos a mesma sorte com o “BANANA KID”, um projeto muito mais ambicioso, sujeito a problemas… O “AMANTE” só nos deu alegria. Muito trabalho, é verdade, fazer o filme não foi fácil. Mas isso foi sina do Denoy: as coisas aconteciam, mas putz! Que batalha, cara…  Dificuldade mesmo. O Chris Rodrigues dizia que tinha uma nuvem escura sempre flutuando por cima do hotel. Pra onde a equipe ia, a nuvem ia atrás, atrapalhando a filmagem — sacanagem do Chris. Mas era um pouco verdade, o Denoy teve muito problema com o tempo. Mas isso não abatia ele em nada. E ainda fez um papel no filme, de diretor do Banco. Aconteceu que o ator que ia fazer o papel sumiu simplesmente. Não apareceu na filmagem, e não tinha outro jeito: improvisaram o Denoy — e deu tudo certo. Foi até bom, a gente tem a imagem dele no filme. Vê-lo nos dá muito prazer, a mim e ao nosso irmão Rui.

 

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