Vida e obra de Denoy de Oliveira (PARTE 2)

1973 foi, enfim, um ano difícil para a LESTEPE, empresa dos irmãos. O lançamento do ‘Amante Muito Louca’ era ansiosamente aguardado, tipo tábua de salvação.

 

Contaria Xavier por carta:

‘Num dia eu e o Denoy estávamos dando um balanço do que fizemos no ano (1973) e chegamos à triste conclusão que o que menos fizemos foi cinema, falo no sentido da criação etc. Se nós dedicamos um mês à criação é muito. O resto é a corrida pela sobrevivência, atrás de bancos, agiotas, financiamentos, como qualquer pequeno industrial de salsicha, papel higiênico, o diabo que seja’.

 

O ‘Amante’ ainda não havia sido lançado, e aconteceu O Festival de Gramado, no Rio Grande do Sul, em 1974, entre 21 e 26 de janeiro, e Denoy o inscreveu, meio relutante. Dos 16 filmes inscritos, o INC — Instituto Nacional do Cinema — selecionou 6 que iriam concorrer. Constavam os seguintes títulos: ‘Amante Muito Louca’, ‘Vai Trabalhar Vagabundo’, de Hugo Carvana, ‘O Descarte’ de Anselmo Duarte, ‘Primeiros Momentos’, de Pedro Camargo, ‘São Bernardo’, de Leon Hirszman, e ‘A Faca e o Rio’.

 

Stepan Nercessian, Denoy de Oliveira, Tereza Rachel e Hugo Carvana recebem Kikito em GramadoO Festival foi, afinal, o primeiro reconhecimento do ‘Amante’ junto ao público e à crítica especializada. O filme ganhou 4 prêmios: Melhor Diretor (Denoy de Oliveira), Melhor Atriz (Tereza Raquel), Prêmio Especial do Júri (Stepan Nercessian), e Prêmio da Crítica (presente ao Festival) como Melhor Filme. E foram premiações surpreendentes, já que havia medalhões (‘Vai trabalhar vagabundo’, ‘O Descarte’, ‘São Bernardo’) que davam a impressão de que iriam abocanhar a maioria dos prêmios. O que não aconteceu.

 

Confessaria o Denoy em carta ao Rui:

 

‘Acho que esse foi um dos trunfos do filme: ninguém esperava nada dele. …A ala jovem do júri, composta por críticos do Rio e São Paulo, encontrou no filme uma bandeira. Eles aguardavam algo assim: um filme de comunicação, mas que não fosse simples chanchada, a simples sacanagem. … A própria imprensa local foi tomada de surpresa’.  

 

O filme foi lançado com sucesso em 1974, e, respaldado pelos prêmios em Gramado, obteve da crítica uma atenção especial, tanto no Rio como em São Paulo. Na opinião do Xavier, seu sucesso de bilheteria poderia ter sido bem maior. ‘Potencial o filme tinha’. O lançamento não aconteceu nas melhores salas da cidade o que veio prejudicar sua trajetória comercial. Mas de qualquer forma, rendeu bastante, conseguiu, por um tempo, ‘equilibrar as contas da LESTEPE’, e, mais importante, possibilitou a ‘entrada do Denoy no cinema com o pé direito’.

 

O ‘Amante Muito Louca’ ainda daria outros prêmios ao Denoy, como: Melhor Diretor — Prêmio Governador do Estado de São Paulo (1975); Melhor Diretor — Prêmio da APCA – Associação Paulista dos Críticos de Arte (1975). A Tereza Raquel ganharia a ‘Coruja de Ouro’, dada pelo INC, como Melhor Atriz do ano.

 

1974 também foi o ano que o Denoy — por conta do casamento com a Fernanda — teve que ir embora do Rio para São Paulo. Ele a conheceu em S. Paulo — ela era assistente de direção do Cláudio Corrêa e Castro. Daí nasceu um romance, namoraram, e finalmente resolveram viver juntos no Rio de Janeiro, no bairro de Laranjeiras.

 

Quem melhor narra esse momento do Denoy é o Xavier: ‘O Denoy se apaixonou pela Fernanda, a quem dedicou uma de suas mais belas músicas, no meu entender. O casamento com a Geny — sua primeira mulher — que já devia ir “mal das pernas”, com o surgimento da Fernanda desabou de vez. Te confesso que eu ficava feliz em vê-lo se arrumar diante do espelho, se pentear, pôr perfume — coisas que ele não era muito chegado — para ver a Fernanda, lá em São Paulo. Ela foi uma aragem romântica na vida dele, e não demorou muito para virem viver juntos, aqui no Rio, isso por volta de 1970. Por problemas de saúde — pressão alta — ela não se deu bem no Rio e passou a forçar a ida deles para São Paulo. Juntava também o fato de o pai dela ter problemas de saúde, em São Paulo, o Sr. Eros do Amaral, um advogado, bela pessoa. Até que chegou num dia em que o Denoy não teve saída e decidiu se mudar. Com lágrimas nos olhos, ele se despediu de mim. E se foi. Fiquei então sem meus dois irmãos, já que o Rui estava há anos na Hungria, estudando.

 

O Denoy partia num momento muito delicado para mim, pois nós dois dirigíamos a nossa empresa de cinema, que passava naquele momento uma crise financeira, e ele sabia disso. Mas ele teve que ir, estava em jogo aí o casamento. Casamento que na realidade trouxe-lhe mais infelicidade do que outra coisa. A Fernanda era uma pessoa extremamente instável, emocionalmente, e a relação deles a partir de São Paulo tornou-se um tormento, com brigas, com o Denoy suportando pacientemente até agressões físicas em nome de sua generosidade e do amor por ela. Esse casamento teve na verdade um saldo negativo, de triste memória pra mim como irmão que o amava e ainda o amo. Mas hoje, analisando friamente, talvez Deus tenha ‘escrito certo por linhas tortas’ ao enviá-lo para São Paulo, já que foi lá que finalmente detectaram o mal que ele tinha de insuficiência renal, com conseqüente problemas de pressão alta, coisa que aqui no Rio nunca os médicos perceberam — faziam os diagnósticos mais absurdos. Lá em São Paulo, constataram sua deficiência renal, o excesso de creatinina, e daí ele teve de fazer um transplante dos rins. Se dizia, mas nunca perguntei pra ele, que foi em consequência da prisão, de espancamento nos rins.

Por sorte, a essa altura o Rui estava de volta ao Brasil, depois de 6 anos, e nós dois nos apresentamos ao Hospital das Clínicas como doadores. Eu não servi, mas o Rui tinha as características orgânicas iguais às do Denoy, e foi o doador, o que deu uma sobrevida ao nosso querido irmão de mais de 20 anos. O Denoy faleceu por outras razões que não as renais.

 

O segundo longa do Denoy de Oliveira, já em São Paulo, foi ‘7 Dias de Agonia’ (‘O Encalhe’), lançado em 1983  — uma história de caminhoneiros com seus caminhões atolados num imenso lamaçal produzido pelas chuvas. É o seu filme mais denso, certamente o mais dramático de todos. Nesse lamaçal, ele ambienta dezenas de pessoas vivendo o drama comum de estarem num local a ermo, impedidos de dali saírem. Através desse entrecho, o Denoy traça um painel humano dos mais contundentes, baseado em conflitos, grandezas e fraquezas, inclusive em situações idílicas. No lamaçal, encalha uma galeria humana díspar, tal como artistas de um circo ambulante, religiosas, fanáticos, prostitutas, um intelectual, e alguns tipos esdrúxulos, a viverem seus dramas íntimos e a ansiedade comum de dali conseguirem sair. Uma estrela que surge no céu é a possibilidade de que haverá sol dia seguinte, cessando portanto a chuva, com a chance de que tudo ali seque e eles possam escapar.

Com este trabalho, o Denoy foi laureado com os seguintes prêmios: IV Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano, de Havana (1983) — Prêmio ‘El Quijote’; Prêmio Especial ‘Air France’ (1983); — Prêmio Governador do Estado de São Paulo (1983) — Melhor Roteiro.

 

O crítico do O Globo, Fernando Ferreira, escreveria sobre o filme: ‘… o filme caracteriza-se precisamente por uma inegável eficiência em conciliar os vários dramas e harmonizá-los numa unidade dramática convincente’. 

 

Em 1985, o Denoy escreveu e dirigiu o longa-metragem ‘O Baiano Fantasma’, girado no submundo paulista de cortiços e periferias, valendo-se de tipos marginais por ‘ofício’, trabalhadores vivendo em situações precárias, gente banida do nordeste, conflitos de cultura de ambiente, uma mixórdia típica de grande cidade atropelada pelo desemprego, pela falta de oportunidade, pela possibilidade de ganho fácil, gente honesta, desonesta, protegida da lei, sem proteção da lei, atrás de míseros ganhos ou de ganho nenhum, e de pequenos golpes — tudo isso num roteiro pungente, versejado, à guisa de um folhetim de cordel.  É seu filme mais exacerbado na análise da condição humana, ou sub-humana, um mosaico em cor viva do drama dos deserdados em seu próprio país, na sua própria cidade ou bairro, ao mesmo tempo um filme piedoso com a espécie, generoso, ninguém é desgraçadamente mal, mas, sim, vítimas de uma engrenagem asfixiante a lhes podar seus minúsculos sonhos. É um filme reflexivo e nele o Denoy se coloca por inteiro e provavelmente ele será lembrado pela galeria de tipos que transpôs pra tela.

Na sua morte, o Estado de São Paulo assim titulou propriamente uma matéria sobre ele: ‘Brasil perde o cineasta do homem comum’.

 

BLOG - Denoy e Regina Dourado - Premio em GramadoCom ‘O Baiano Fantasma’ o Denoy obteve os seguintes prêmios: XII Festival de Cinema Brasileiro de Gramado, Rio Grande do Sul (1984) — Melhor Filme, Melhor Diretor; No VII Festival Internacional Del Nuevo Cine Latinoamericano, Havana (1985) — Menção Honrosa, pela OCIC; No II Festival de Cinema de Língua Portuguesa – Avoeiro-Portugal (1986) — Troféu de Ouro de Melhor Filme; Prêmio Governador do Estado de São Paulo (1985) — Melhor Filme.

 

Comentaria o crítico Nélson Hoineff, anos após o lançamento do filme, em 15.12.98, a propósito da morte do Denoy: ‘Deixou na sua herança artística um dos maiores filmes brasileiros de todos os tempos, ‘O Baiano Fantasma’

 

Durante o ano de 1985, o Denoy realizou dois filmes, um de média e outro de curta-metragem intitulados ‘Fala Só de Malandragem’ e ‘Nós de Valor, Nós de Fato’ com um detalhe bastante singular em sua carreira cinematográfica e na cinematografia de modo geral. Foram filmes feitos com as detentas da Penitenciária Feminina da Capital de São Paulo, em cima de espetáculos que elas mesmas encenavam dentro do presídio. Uma atriz, Maria Rita Freire, realizava trabalhos de ressocialização através do teatro — Projeto A Arte como Processo de Recriação em Presídios — e o Denoy filmou dois espetáculos especialmente encenados para as câmeras. Os textos eram criados pelas próprias presas, nos quais elas depunham sobre suas vidas e mazelas, utilizando a fabulação do circo como meio de expressão. Foram trabalhos feitos através do sistema de cooperativa das detentas.

 

Os filmes foram premiados em diversos festivais, como seguem:

‘Fala Só de Malandragem’ — XVIII Festival de Cinema Brasileiro de Brasília, Troféu Candango de Melhor Filme (Júri Popular); Menção Honrosa, Júri Oficial; XIV Jornada de Cinema da Bahia (1985), Troféu Jangada, de Melhor Filme; II º Festival de Cinema de Caxambu (1985), Melhor Filme.

 

‘Nós de Valor, Nós de Fato’ — XVIII Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (1985), Menção Honrosa; IIº Rio Cine Festival (1986),  Prêmio Sol de Prata de Melhor Direção; Troféu Macunaíma de Melhor Filme pelo CNC; XV Jornada de Cinema da Bahia (1986), prêmio Tatu de Prata de Melhor Documentário; 1º Festival de Fortaleza do Cinema Brasileiro (1985), Menção Honrosa.

 

Durante o governo Fernando Collor, quando o cinema brasileiro foi programadamente dizimado através da destruição de sua fonte principal de fomento, a Embrafilme, e do órgão regulatório, o Concine, quando enfim as perspectivas de fazer cinema no Brasil eram as mais desalentadoras, o Denoy realizou o média-metragem ‘Que Filme Tu Vai fazer?’, de 1992, uma sátira mordaz contra o descalabro oficial que desabou em cima da frágil indústria cinematográfica brasileira. Talvez seja dos seus trabalhos o que tenha a maior influência, pelo menos visível, das obras do CPC da UNE, destruído nos idos de 64.  No filme, são feitas encenações críticas extravagantes, bem humoradas à americana Motion Pictures e seu representante-mor Jack Valenti, bem no estilo cepeciano, ao lado de depoimentos aflitos de cineastas. Um filme sem dúvida histórico, antológico, pois registra um momento crítico da cinematografia nacional, felizmente superado.

Com o média-metragem ‘Que Filme Tu Vai Fazer?, o Denoy conquistou os seguintes prêmios: no Concurso de Documentário da Secretaria do Estado da Cultura de São Paulo; no XX Festival Internacional de Gramado (1992), como Melhor Diretor; na XIX Jornada Internacional de Cinema da Bahia (1992), prêmio Tatu de Ouro, como Melhor Filme.

 

Como último trabalho, o Denoy realizou ‘A Grande Noitada’, um filme que, desde o seu primeiro pedido de fomento ao Ministério da Cultura até o seu lançamento comercial, levou 5 anos em gestação. Assim, ele enuncia esse filme: ‘A Grande Noitada’ é uma comédia, mais precisamente uma comédia de ‘absurdos’, que, às vezes, parece caminhar sobre o fantástico’. Uma síntese correta do seu trabalho. E diz mais: ‘A Grande Noitada’ caminha entre os dois mais primitivos sentimentos e fantasmas da literatura ocidental: a Morte e o Amor. Através deles, nossos personagens vivem e morrem na eterna busca da ‘felicidade aqui’, num mundo onde ruíram mitos e ideologias’.

 

Já no roteiro o filme foi premiado no Concurso de Roteiros da Secretaria de Estado da Cultura, SP, e no PIC — Programa de Incentivo ao Cinema da Secretaria Municipal de Cultura, SP.

 

Maracy Mello foi produtora executiva de seus filmes desde 1984, primeiro, no curta-metragem “O Vendedor de Ilusões”, depois já no longa-metragem “O Baiano Fantasma”, também em 1984, em seguida os médias-metragem “Fala Só de Malandragem”, e “Nós de Valor… Nós de Fato”, em 1985, “Que Filme Tu Vai Fazer?”, em 1992, e por último no “A Grande Noitada”, em 1998, ano de seu falecimento. O Denoy conheceu a Maracy em 1978, durante as filmagens do “J. J. J. – O Amigo do Super-Homem”, que ele dirigiu, tiveram um romance, e se casaram anos depois. A Maracy acompanhou a trajetória dele nos seus últimos 20 anos de vida — seu filho, Fernando Ambrogi, órfão, tinha, e tem ate hoje, veneração pelo Denoy.

A Maracy foi uma grande companheira. Colaborou incansavelmente nos projetos e na realização dos filmes, e foi de extrema dedicação nos problemas de saúde dele, ultimamente já muito combalida.

 

O primeiro tratamento do roteiro do “A Grande Noitada” foi escrito em janeiro de 1989. O segundo, em agosto de 1991. O terceiro e último, em maio de 1993. Vê-se, portanto, que o projeto foi desenvolvido durante longos anos, uma prática e ao mesmo tempo um dissabor para os cineastas brasileiros que passam anos sem ter condições de filmar, apesar de terem projetos prontos.  No caso do ‘Noitada’, da primeira versão ao seu lançamento, foram 9 anos. Um tempo excessivo realmente, o que explica o fato de os cineastas brasileiros realizarem ao longo da vida uns 10 títulos no máximo, enquanto nos EEUU, por exemplo, essa marca atinge 30, 40 filmes.

 

‘A Grande Noitada’ com certeza é o filme mais experimental do Denoy, no sentido da busca de uma linguagem não convencional, e de mescla de diversas expressões artísticas. É intencional a experimentação dos recursos do circo, das histórias em quadrinhos, da grande ópera, da opereta, tendo como pano de fundo a farsa, o drama, a comédia que gravitam em torno dos fenômenos da Morte e da Vida.  O grande mérito do roteiro é justamente o uso próprio de todos os recursos citados, numa simbiose dramatúrgica perfeita, onde os estilos se alternam sem nenhuma queda na continuidade dramática da história. Há uma harmonia entre os ‘alhos e bugalhos’ da linguagem cênica que somente um autor no apogeu de sua maturidade artística poderia obter. Ainda quanto à forma, a música é outro dado fundamental e permanentemente. Ela atua de forma expressiva.  Como o próprio Denoy define: ‘não é um musical, mas tem um grande apoio na música’. 

No ‘Noitada’, o Denoy volta a demonstrar o domínio que possuía na construção dos personagens, uma das tarefas mais complexas na dramaturgia. Seus tipos são rigorosamente convincentes, sanguíneos, reais, e ele sabe muito bem tirar partido dessas criações e explorar o conflito entre eles, o choque, e isso dá riqueza à narrativa. Seus personagens se comportam assim, porque são assim, e reagem dentro do que é psicologicamente plausível a cada um deles. Seja o Roque Brasil — personagem central —, o Carlito, a Mimi, a Neda (esposa de Roque Brasil), enfim, todos revestidos de uma verdade, de realidade própria. E esse é outro destaque do roteiro: personagens reais atuando numa história que é praticamente uma fabulação sobre a Vida e a Morte. É mais uma harmonia de roteiro.

 

Conversando com o Xavier e com o Rui eles me disseram que o roteiro do ‘A Grande Noitada’, desde o seu nascimento, em 1989, os incomodou muito.  Havia entre os irmãos o hábito de discutirem juntos qualquer idéia que algum deles tivesse, e o ‘Noitada’, como todos os outros roteiros, também passou por esse processo crítico e de enriquecimento. Mas a história incomodava os irmãos porque passava nela claramente uma anunciação fatal pelo autor, uma admissão velada de um fim próximo, algo premonitório, da Morte fazendo-se breve.  O Denoy tinha consciência de sua fragilidade física (transplantado renal, safenado, diabético, e com um infarto) e forçava os limites de suas forças no sentido de produzir, de que lhe faltava pouco tempo de vida, e que era fundamental construir o mais urgente possível, algo como a morte não pode esperar — é a impressão que seus irmãos me revelaram.  E que bem se justifica. É sintomático que o Denoy tenha acrescentado no roteiro de filmagem, portanto na versão final, uma fala do Roque Brasil que diz: ‘— A morte não é o fim. É o começo’.  Esta frase, bem anunciadora, não havia, nem outra assemelhada, na versão oficial do roteiro. Havia, sim, um momento, com a personagem Mimi, em que Roque Brasil diz: ‘Sou um homem envelhecendo sozinho… sem uma crença…amor… sem uma lágrima. Nada pode salvar Roque Brasil que se aproxima do nada. Talvez a arte’.

 

Enfim, ‘A Grande Noitada’ não deixa de ser um cortejo, um rito farsesco — com todos os seus tipos e galerias humanas — diante do fenômeno da Morte.

 

O Denoy não chegou a assistir ao lançamento do filme. Ele faleceu no dia 4 de novembro de 1998, de complicações operatórias, no Hospital das Clínicas. Seu corpo foi velado na Câmara Municipal de São Paulo.

Por solicitação da Vereadora Lídia Corrêa, foi oficiado um voto de pesar na sessão da Câmara, em 12/11, nos seguintes termos: ‘REQUEIRO, nos termos regimentais, seja inserido na Ata dos trabalhos da presente Sessão voto de pesar pelo falecimento do cineasta Denoy de Oliveira, ocorrido em São Paulo, dia 04 de novembro de 1998’ .

A FUNARTE – Departamento de Artes Cênicas, do Ministério da Cultura enviou à família a mensagem (trecho): ‘… A cultura brasileira perde, além do artista, um lutador comprometido sempre com causas grandiosas’.

 

Em 11/12/98, estreava o ‘A Grande Noitada’ em São Paulo.

 

Escreveria o crítico Luiz Carlos Merten, no Estado de São Paulo, após sua morte: ‘Nunca houve outro herói para Denoy de Oliveira que o homem comum. É que se apreende da análise da obra do cineasta, especialmente de seu filme mais famoso, ‘O Baiano Fantasma’.

 

No Jornal do Brasil, comenta o ator José Wilker, em 29.12: ‘… Denoy precisava saber o que tinham achado do seu filme (‘A Grande Noitada’). Ouvi legais, difícil, ousado, hermético, divertido, original, a coisa caminhou por aí, sem grandes aprofundamentos. Na verdade, ‘A Grande Noitada’ é tudo isso e muito mais’.

 

Hugo Sukman, do O Globo, registra em 11.12: ‘A Grande Noitada’ é uma ópera-bufa (que lembra os delírios de Fellini) cujos personagens patuscos vêm da escória da elite…’

 

O Jornal da Jornada (da Bahia) estamparia: ‘A obra do autor, compositor e cineasta Denoy de Oliveira (1933-1998) ficou marcada pela honestidade intelectual refletida, também, em sua participação em movimentos de classe. Sua biografia está pontuada por esse perfil crítico às injustiças sociais e políticas, presentes nas décadas de 60 e 70.’

 

O crítico Nélson Hoineff, em O Dia, 15.12: ‘A Grande Noitada’ é um testamento irretocável, uma obra ousada e polêmica como seu realizador’.

 

Fernando Albagli, crítico, Jornal do Brasil, 11.12: ‘… um realizador com lugar de destaque na cinematografia brasileira.’

 

Do cineasta Vladimir Carvalho: ‘… um artista tão intenso como foi o cidadão Denoy de Oliveira, ceifado ainda tão cheio de vida como tantos outros nessa batalha sem fim do cinema brasileiro.’

 

Sua primeira mulher (3 casamentos), a musicista, poeta e pintora Geny Marcondes, escreveria após a morte dele (trechos).

 

Réquiem para um artista

 

Era nobre sem ser belo

gentil-homem camponês

peito aberto para o abraço

mãos em concha de acalanto

boca de beijar

nunca de morder

…………

em que me levarias ao colo

com mãos de mãe em concha

Lembrar tudo isso é roçar a dor com as unhas

embora seja ao mesmo tempo doce

como deveria ser a tortura

dos cilícios para os fanáticos da fé.

 

Isso não te agradaria

Tinhas paixão mas eras prático

Cada coisa em seu lugar.

Te doavas

e ao mesmo tempo te guardavas.

Teus olhos verdes pareciam límpidos

mas havia por detrás deles

um espelho claro às avessas

a esconder o que sentias

daquilo que só tu sabias.

……

Teu segredo foi contigo

Ficaram lições de amor

os acalantos das madrugadas

as viúvas do teu doar-se

tua capacidade de sentir

e compreender

e a saudade imensa

de teu vulto, de tua voz

do dadebeijo generoso de tua boca

do ninho carinhoso do teu peito.

 

Diria o Xavier: “A Geny foi de uma importância muito grande na formação artística do Denoy — também na minha, na do Rui… Mais velha que ele, era uma pessoa muito culta, talentosa… Encantava a todos pela erudição, verve, ao lado de uma extrema simplicidade. Era sua marca uma maneira própria de falar, inteligente, de uma fluência elegante, uma facilidade com o idioma incrível, comunicativa — era brilhante a Geny. As palestras dela sobre arte eram momentos de sedução. Ela fez música para o meu curta Escravos de Job, e, em parceria com o Denoy, para o longa “Marcelo Zona Sul”.

O casamento deles durou uns dez anos. Eles se conheceram na peça “Círculo de Giz Caucasiano”, de Brecht, no Serviço Nacional de Teatro, em 1962 — ela encarregada da música, e ele ator. Depois, no Teatro Opinião, fizeram músicas em parceria nas peças “Se Correr o Bicho Pega Se Ficar o Bicho Come”, “O Revólver Justiceiro”, texto do Denoy, e que obteve o prêmio de Melhor Musical, no 1º Seminário Carioca de Dramaturgia, em 1967; fizeram a música da peça “Os Monstros”, texto do Denoy, escrito no cárcere político, e encenada em 1969, no Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, e muitas outras criações. Enfim, uma vida a dois muito produtiva,  de grande afinidade espiritual, criativa, mas que terminou, um dia.

A Geny faleceu em 2011, na sua cidade natal de Taubaté, interior de São Paulo, onde viveu seus últimos anos de vida.

 

Dias após a morte do Denoy, em 1998 — 26 anos depois de separados — ela escreveria de Taubaté para o meu irmão Rui.

 

“Meu querido amigo Rui. Você perdeu seu pai duas vezes e eu perdi o meu amor duas vezes. Dura prova à qual eu preciso resistir. E só o trabalho e as recordações podem nos ajudar. As lembranças do Denoy vivo me perseguem dia e noite. Não consigo realizá-lo morto. Felizmente, graças a Deus, não o enterrei, não o vi sem vida. Foi uma bênção. Ele está muito vivo em meu pensamento, sua cor rosada, seu peito amigo, seu abraço caloroso, seu sorriso aberto, sua voz linda, sua musicalidade genial…”.           

 

Por carta de 29/01/1999 pra mim e pra Armênia, A Geny contaria como conheceu o Denoy, mas começava assim:

 

“… não escrevo mais música, e fechei o piano quando ele se separou de mim. Decididamente a música nunca me foi propícia. Mas vou contar agora só doces lembranças de meus primeiros contatos com o Denoy.

Eu estou (1961?) no palco do Teatro Nacional de Comédia para fazer testes com os atores para a peça “Circulo de Giz Caucasiano”. Sentada ao piano, de lado, para poder olhar a plateia em toda extensão, e ver cada ator que vem um a um ficar ao meu lado para o teste de voz — eu me aborreço. Estou há 16 anos no Rio e não me habituo com o jeitão displicente e mole do carioca andar e falar. Na Rádio MEC, onde trabalho, estou sempre em atrito com datilógrafas, técnicos, sou filha de uma italiana do norte, vivi em São Paulo mais de 10 anos, casei-me com um alemão (o famoso compositor erudito Hans Joachim Koellreutter – nota minha), sou rápida e decidida. Acabo batendo, eu mesma, diariamente os meus programas, porque a datilógrafa me enerva.

Os atores vêm pelo corredor da plateia, devagar e sempre, até subir no palco para o teste de voz. De repente, levo um susto! Milagre! Alguém vem rápido, como um bólido, de um salto sobe ao palco; já está junto de mim. Mal posso crer. É a primeira impressão de um jovem ator que se chama Denoy de Oliveira.

Segunda impressão: Dia seguinte. Exame de memória musical, timbre, afinação. A partitura de Paul Dessau é difícil. E cheia de intervalos duros, é expressionista. … O exame em geral é um desastre, eu toco um trechinho, eles devem repeti-lo. Vou chamando um a um a esmo, por palpite, conforme a cara de cada um; eu, com onipotência, acho os que devem ser musicais ou não. Como o Milani (Francisco Milani – nota minha), não me engano. Ele … tinha cara de artista. E era. Afinadíssimo (tocava muito bem piano, de ouvido, soube que ganhara a vida tocando em bares de São Paulo). Bem, continuo olhando e checando, olho para o Denoy e desanimo. Penso: esse rapagão forte, corado, com cara de boxeur, deve ser um desastre (a primeira prova que eu fizera com ele foi muito curta, foi só repetir intervalos muito simples. Não dera nem para conhecer bem o timbre da voz). Deixei o infeliz por último. Ele não perdeu o bom humor, nem a modéstia. Acercou-se, gentil, do piano, respeitoso, toquei-lhe um tema, pedi que o repetisse. E quase desmaiei de gosto: a voz era linda, era afinadíssimo, não esquecia uma só nota. Fui tornando o exame cada vez mais difícil, cada vez mais notas, cada vez mais evoluções. O cara era perfeito. Tive um prazer enorme. O mesmo que um garimpeiro tem quando encontra um diamante no meio de cascalhos”.                                                        

 

E já comentando o espetáculo, onde ela ficava ao piano, recuada e mais acima do palco:

 

 “De repente, comecei a notar algo estranho, no trio dos três guardas. Um deles, em lugar de olhar para a plateia, não desgrudava os olhos de mim. Como os três homens tinham a mesma roupa e as mesmas máscaras, mais ou menos a mesma estatura, eram robustos, eu não sabia qual deles não desfitava os olhos de mim. Só sabia que os olhos eram claros e brilhantes. Aquele jogo tornou-se fascinante. Eu já esperava, excitada, a hora da marcha, e aquele olhar magnético que parecia querer me comer viva. Isso durou muito tempo. Semanas. ….. O Denoy me levava para casa, após o espetáculo, pois descobrimos que morávamos perto. …. Até que um dia consegui vislumbrar no camarim dos guardas o momento em que completavam o uniforme. E descobri que o dono daquele olhar insistente e fascinante era ele.”

 

 

Meu irmão Denoy tinha uma bela voz. Ele compôs e cantou nos filmes: “Amante Muito Louca”, direção dele, no “Um Homem sem Importância”, do Alberto Salvá; no “7 Dias de Agonia” e “O Baiano Fantasma”, ambos direção dele.

 

Pedi ao Xavier que comentasse que imagem ele guardava do irmão Denoy, passados 6 anos de sua morte. Ele falou assim:

 

‘A memória do Denoy permanece a todo instante em mim e no Rui. Ele foi fundamental em nossas vidas. Há poucos dias comentei com o Rui que a palavra irmão é pequena demais para expressá-lo, é restrita. Irmão é acontecimento natural, casual, episódico até. No caso dele, a relação que nos uniu e nos une transcende essa palavra. No release que escrevi sobre ele para a Riofilme, a propósito do lançamento comercial do ‘A Grande Noitada’, eu dizia:’

 

Além de irmãos unidos, tínhamos afinidades intelectuais e de sentimentos diante da vida que certamente irão transpassar à eternidade. Ele foi e me será sempre um facho de luz. Tanto a mim como ao Rui de Oliveira, nosso outro irmão.

 

‘E dizia mais, comentando sua obra:’

 

Seus filmes sempre foram concebidos dentro de uma linguagem simples de cinema (provavelmente ‘A Grande Noitada’ seja o de maior elaboração). Acompanhei a gestação de todos, – tínhamos por regra discutir os nossos roteiros antes de realizá-los. Ao Denoy importava principalmente ‘o que dizer’ nos filmes. Seu conteúdo. Nenhum maneirismo quanto à forma, que na verdade lhe valia apenas como suporte à contundência de seus temas. …filmes como ‘7 Dias de Agonia’ ou o ‘O Baiano Fantasma’ são momentos de expressividade que orgulhariam qualquer cinematografia do mundo. A seqüência no ‘Baiano’ em que dois trabalhadores imigrantes, um nordestino e um japonês, – perto do final do filme, – cruzam um pelo outro, na solidão e desterro da grande cidade, é para mim uma das mais belas cenas que já vi em cinema.

 

‘E eu concluía assim:’

 

Que triste ironia o fato de ele não poder acompanhar em vida a carreira do ‘A Grande Noitada’!, – a meu ver, e digo como realizador, a sua obra mais madura em termos de direção, de roteiro, e também de apuro de uma forma de cinema que ele vinha modelando a cada filme. ‘A Grande Noitada’ é uma bela fábula sobre a solidão humana, a busca do sonho, o inexorável tráfego de todos nós entre essa linha tênue que vai da vida à morte – é assim que vejo este seu último filme.’

 

E Xavier continuou falando do irmão: ‘Respondendo tua pergunta — a imagem que guardo dele — guardo a imagem de uma pessoa alegre, de bem com a vida. Sempre risonho… Outro dia o ator Sérgio Mamberti me disse: ‘teu irmão era o único cara que acordava de manhã cantando’. Eles foram companheiros de quarto num festival e o Sérgio me falou dessa mania dele. E era verdade. Ele tinha uma voz muito boa, ele compunha e cantava. Tinha uma bela voz. Pois é a imagem que tenho dele: uma pessoa sempre acreditando, jamais o vi deprimido, ou sem entusiasmo. Sempre com um projeto em mente, otimista às vezes até em exagero. Amigo dos amigos. Tolerante com as pessoas. Tinha uma paciência com os outros… Generoso, como diversos jornalistas disseram. Assim era o Denoy. Quando eu vivi no interior da Bahia, em Itapetinga, uma terra, como já disse, inculta na época, de difícil comunicação, eu me lembro que ele se preocupava com o meu isolamento e me enviava livros, revistas. Tudo que fosse possível para eu manter contato com a vida cultural do Rio de Janeiro. Uma vez ele mandou a Senhor, que era uma revista literária de ponta, me chamando a atenção para o conto de um autor extraordinário, o tcheco Franz Kafka, à época, final dos anos 50, ainda desconhecido no Brasil. O Denoy me enviava textos teatrais, autores que pontificavam como Ionesco, Brecht, me recomendava filmes. Certa vez ele me recomendou o filme Studs Lonigan (que recebeu o título idiota no Brasil de Uma Vida em Pecado) que acabei comprando em VHS ano passado, em Los Angeles, de um colecionador. Denoy me municiava de livros, a mim e ao nosso irmão Rui. Volta e meia topamos com a dedicatória dele. ‘Ao meu irmão Rui, ao meu irmão Chico…’ Ainda da nossa infância e adolescência eu guardo dele a imagem do irmão mais velho, sempre orientando, apaziguando as minhas brigas de menino com o Rui — um homenzinho. Muito cedo já com seu terninho indo trabalhar, sempre com livro na mão. À noite, ele ficava até altas horas ouvindo no rádio clássicos no programa “Música Melodiosa”, e eu querendo dormir!… — isso ainda em Benfica. Nosso irmão Denoy será sempre pra nós uma doce e eterna chama. Assim ele se referia à nossa família em carta para o Rui, na Hungria, em 27.12.72:

 

‘… nós, irmãos oliveiras, uns caras privilegiados. Privilegiados porque tivemos: A-) pai e mãe vivendo em razoável (não posso dizer total porque isso é muito difícil, mas razoável já é muito bom) harmonia. B-) uma figura paterna autoritária sim, mas com um grande senso de justiça. C-)  embora as pancadarias que recebemos, especialmente de nossa mãe, nós sentíamos que eles nos amavam, e nos assistiam em tudo. Então, meu caro, nós já partimos de um bom princípio. Tivemos amor, segurança emocional (apesar da financeira ser bem precária) e padrões sem dubiedades. Acho que nossos pais, especialmente o papai, foram realmente excepcionais’.

 

E diria de nós, em carta pro Rui de 27.12.72:

 

‘Então fico muito feliz de ter esse relacionamento com vocês dois, que são irmãos de sangue por uma baita casualidade, porque no duro mesmo a gente é irmão de alma, é irmão do olhar, do infinito que carregamos em nós. Isso não quer dizer que sejamos iguais, pensemos iguais ou que tenhamos que viver grudados. Nunca isso. Isso quer dizer o seguinte: estou aqui te escrevendo, e estou vendo teu rosto atento… Parece que estou vendo você, já acabando de ler, andando com os pés espalhados, lento, mão no bolso de trás, cabeça meio arriada, por aí assim. ’

 

E finalmente em carta pro Rui, carta de 21.5.73:

 

‘Sabe, Rui, hoje sou um cara de meia idade. Isso não me surpreende, nem me desvanece. Me sinto bem forte, com uma gana incrível de fazer coisas’.

 

 

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