O VAMPIRO DE COPACABANA – (texto de lançamento – setembro de 1976)

Trecho da entrevista concedida ao escritor e jornalista Evaldo Diniz pelo diretor do filme Xavier de Oliveira.

BLOG - VC - Desnho Rui PB s títuloEVALDO – Xavier, você é um observador crítico do comportamento da classe média. Assim foi no filme MARCELO ZONA SUL, ANDRÉ A CARA E A CORAGEM, AMANTE MUITO LOUCA… Trata-se realmente de um compromisso com a classe média, com a sua época, ou porque falar da classe média é mais rentável?

XAVIER – Evaldo, só duas coisas… Uma que o ANDRÉ não focaliza a classe média, e outra que o AMANTE não é um filme meu. Sinceramente, o enfoque que faço da classe média é porque é a classe que mais perto de mim, à qual eu pertenço, e sinto todas as suas dores. Pra mim, é mais fácil escrever uma história de classe média do que sobre a alta burguesia ou o operariado.

EVALDO – Então, o VAMPIRO é um filme de observação crítica social?

XAVIER – Acredito que sim.

EVALDO – Que história é essa de “vampiro sugado”?

BLOG - VC - André Valli ao microfone d parque - retrabXAVIER – Esse tema de vampiro fica na verdade como uma extravagância, até em termos de realidade brasileira. O Carlos se diz um personagem sugado pela nossa realidade. Sugado por uma série de coisas. Eu procuro no decorrer do filme mostrar essa característica do cara esmagado, um esmagamento que eu acho estar submetida toda a classe média. Quem da classe média não está endividado? Eu pergunto: quem? Esse cara então no carnaval resolve se fantasiar de vampiro e pôr pra fora todos os seus recalques. A ligação que esse filme, ou esse personagem, tem com a classe média urbana está na medida em que ele tem consciência do seu problema, e se considera um vampiro ao contrário.

EVALDO – Esse filme é uma pornochanchada ou uma saída à pornochanchada à qual você teve que se submeter, de qualquer forma?

BLOG - VC - André Valli chega junto ao mosquitXAVIER – Esse negócio de pornochanchada é um assunto meio complicado. Economicamente te digo que vivo a contradição da pornochanchada, e acho que todo mundo que faz cinema no Brasil vive também… Acho que não estou livre dela e nem ninguém. Ela é um fenômeno econômico concreto, única frente competitiva ao cinema estrangeiro. Disso ninguém tem dúvida. No caso do VAMPIRO, te digo que tive influência da pornochanchada, da chanchada, e de tudo mais. Não posso me afastar do lado econômico e aplicar num filme toda minha esperança, o meu dinheiro. Em princípio, não sou contra a pornochanchada como forma de cinema. Sou contra o filme elaborado precariamente, sem qualquer imaginação, um trabalho picaretado visando apenas a bilheteria. Não devemos ser contra a tendência pornochanchada e sim contra os maus filmes feitos sob o embalo dela. Creio que se pode até usar elementos da pornochanchada, em termos de forma, e levar através dela conteúdos de importância humana, crítica, etc. Se a gente quiser levar ao público o mesmo conteúdo numa embalagem não consagrada como a da pornochanchada, é possível até haver uma rejeição do público.

BLOG - VC - Troco - Suley (Â Valério) tenta dar marido c estranho (Emiliano Queiroz)EVALDO – Você tem revelado sempre nos teus filmes novos atores, e no VAMPIRO, não. Conta isso aí?

XAVIER – O André Valli, que é o personagem central, é um ator extraordinariamente talentoso, só isso. Não é um lançamento, mas e daí? O André cobria todas as características que eu queria do personagem Carlos, eu vi nele a humanização sua. É um ator que vinha ao encontro do que eu queria, é só isso.

EVALDO – Eu conheço a Ângela e sei que ela é meio tímida. E no filme ela não parece nada disso. Qual é o segredo dela?

Carlos (Andre Valli) vê as fotos do vizinho criança que se parece com seu filhoXAVIER – A Ângela trabalhou em 1971 no outro filme meu, o ANDRÉ A CARA E A CORAGEM. Antes de ser tímida, a Ângela é uma pessoa muito maleável, eu conheço bem ela. Sei que ela é tímida, mas isso não influi no seu trabalho. A Ângela é uma das maiores atrizes do nosso cinema. Ela é tímida, mas, quando se liga a câmera, ela vira um demônio.

EVALDO – Ainda sobre a equipe, e o Ruy Santos?

XAVIER – O Ruy fez dois filmes comigo seguidos, o VAMPIRO e outro ainda inédito e sem título (Nota: GARGALHADA FINAL). O Ruy é um poeta, e sua fotografia no filme tem sido elogiada. Sua contribuição é muito grande nos dois filmes.

EVALDO – Estou vendo aqui que a música foi feita por Nilo Pinta, Flavio e Wanderley. Fala aí desses caras.

XAVIER – São três garotos cobras. Você viu o filme e pode dizer isso também. As músicas são muito bacanas e com esses garotos eu tive um bom entendimento artístico.

EVALDO – Fala aí dos teus próximos filmes.

XAVIER – Eu vou continuar a fazer filmes dentro da linha que sempre fiz, desde meu curta ESCRAVOS DE JOB. Fazendo comédia ao lado de coisas sérias, como no MARCELO ZONA SUL. Mas eu penso agora em partir pra uma comédia de época e um filme livre. Gostaria de voltar ao filme livre, vamos ver se dá pé.

EVALDO – Você é conhecido como o cara que filma com parentes e amigos. O que é isso?VAMPIRO FOTO EXPE - André-3

XAVIER – Isso é onda. Não vai nessa.

EVALDO – Mas o VAMPIRO é autobiográfico. Você usou até filho…

XAVIER – E daí!? Usei o meu filho porque quando eu escrevi o roteiro já tinha pensado nele. Usei porque era mais cômodo pra mim. Sinceramente eu tinha pensado num menino de 4 anos. Mas até aí, nada de autobiográfico, e nem era o caso. Eu procurei fazer um trabalho sincero a respeito de uma geração acima dos 30 anos. Gente que atravessou diferentes experiências, em diferentes setores da vida.

EVALDO – Me conta… Aquelas cenas de carnaval. Quando o André partia pra agredir as pessoas na rua… Como elas reagiam?

BLOG - VC - Kátia D´Ângelo e Ângela ValérioXAVIER – Foi o negócio mais estranho. E difícil. Planejamos tudo antes, no escritório, antes de irmos pra Avenida. Eu sabia que era difícil orientar em toda aquela confusão. Discutimos, eu e o André, a linha que iríamos fazer a sequência. Tomamos um conhaque e partimos pra rua. Nós e a equipe. E na hora o André atuava de uma maneira tão violenta que tivemos embaraços pra contornar. Mas nós tínhamos na equipe um corpo de choque pronto pra qualquer parada. E eu dizia pro André: manera um pouco! Mas o André continuava atacando as pessoas que às vezes reagiam. A filmagem foi um troço muito doido.

EVALDO – Dentre os filmes que a LESTEPE produziu, o VAMPIRO seria o de orçamento mais alto?

XAVIER – É o filme mais caro que produzimos. Fizemos em associação com a ATLÂNTIDA e com o investidor particular Amilton Freitas. Mas não quer dizer que é um filme caro. Ao contrário. É um filme barato, ou de custo médio.

???????????????????????????????EVALDO – Qual é a reação de público que você está esperando?

XAVIER – Acredito que o filme será de grande comunicação popular.

 

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