Gargalhada Final – Entrevista com o diretor Xavier de Oliveira

BLOG - GF - Letreiro a cor - o bomXavier, fala do “Gargalhada Final”… As datas dele são complicadas… O início…

São mesmo — salpicadas. É até duro dizer isso… Duro pelo tempo! Você vê: a primeira versão do roteiro eu escrevi em 1973, final do ano. Me lembro, escrevi num apartamento vazio em Ipanema, que pertencia ao meu primo. Ele me emprestou, o Bebeto. O segundo tratamento foi em 74. Em 74 mesmo assinei um contrato de financiamento com a Embrafilme, mas pro Banana Kid…

 

De novo o “Banana Kid”? Eu queria que você depois falasse mais desse projeto…

Vê bem, contrato de financiamento, com avalista e tudo, nota promissória… O avalista foi o cunhado do Denoy, o José Rubens, um industrial paulista, uma bela pessoa. O valor do financiamento foi de Cr$ 250.000,00 — duzentos e cinquenta mil cruzeiros — não sei o que seria isso hoje. Eu tenho até aqui o contrato… — o diretor da empresa era o Walter Graciosa. Só que eu não iniciei logo o filme aí. Só no início de 75. Nessa época fiz um aditamento no contrato, troquei o projeto, coloquei o “GARGALHADA FINAL” e consegui mais cinquenta mil cruzeiros. Aí já na administração do Roberto Farias…

 

Mas fala da filmagem mesmo…
Pois é. Esse filme surgiu num momento muito difícil da minha vida, em termos de grana, só me vali pelo crédito que eu tinha na praça, nas empresas de cinema, locadoras, e certo prestígio na Embrafilme, que praticamente bancou a produção. Sem a Embrafilme, não tinha filme. Durante esse quase um ano que eu fiquei com o roteiro na mão foi o tempo de retrabalhar a história, dar pra algumas pessoas lerem…

 

Nessa carta aqui pro Rui, lá na Hungria, você dizia assim…

5 de janeiro de 75. … Vou começar a filmar dentro de duas semanas. O filme se chama provisoriamente de OS TRAMBIQUEIROS, título detestável, mas é só para atrair financiadores…”

 

Só que não atraí ninguém…

… “é a história de dois artistas circenses que brigam no circo com o dono e acreditam tê-lo matado. Eles vão então pelas estradas no rumo de São Paulo, onde — especialmente o garoto — acreditam ficar famosos, ricos etc. O filme é então a trajetória desses dois personagens, pai e filho na verdade, pelas estradas, sobrevivendo aqui e acolá. O pai é um ventríloquo e vai carregando seu boneco e seu sonho de trabalhar num grande circo. O filho já não acredita mais em circo – o negócio dele é a TV. Quero mostrar finalmente a alienação da TV por esse país, o sonho perdido. Levo uma fé muito grande nesse filme. Vou ver se te mando um exemplar (tenho poucos) do roteiro. Esse é o primeiro tratamento. Me fizeram críticas, preciso rever alguns pontos. Mas todos gostam. O Denoy analisou o roteiro bem, dizendo que o boneco sou eu — é ele, no fim de tudo, perdido nas estradas com seus sonhos massacrados, na solidão. A Armênia, que é sinceramente crítica, gosta muito e crê na fita. O aspecto comercial é o ponto de interrogação. E por isso vamos fazer o filme praticamente sozinhos. Não conseguimos ninguém que entrasse conosco. Ninguém acredita no seu sucesso. Mas eu creio. Não num sucesso estrondoso. Mas numa carreira vitoriosa e num filme que vai me somar pontos.” “… tenho visto locações maravilhosas, bonitas: rios, vales, laranjais…”

 

 

Mas explica essas andanças do BANANA KID. Vira e mexe… Seria o teu segundo filme depois do MARCELO, correto? Com projeto aprovado na Embrafilme e tudo mais. Mas aí você troca pelo AMANTE MUITO LOUCA… Mais à frente, em 74, você aprova ele de novo, mas muda outra vez pro GARGALHADA. Fala um pouco dele.

O BANANA ficou tipo miragem. É uma história forte — na época era, apesar de ser pro público infanto-juvenil. Mas sempre pintou pra nós… — é difícil fazer. A gente se assustava… Pelo custo, produção… O filme ficaria por uns 500 milhões de cruzeiros antigos. Era alto. Aí a gente partia pra uma ideia mais simples — o AMANTE, o GARGALHADA. Tinha outro problema: a Embrafilme financiaria pouco mais da metade e ia ficar com 70% da renda até pagar o que ela emprestou. Pra se pagar o filme tinha que render 1 bilhão de cruzeiros — não era fácil. A história do BANANA KID é mais ou menos assim, resumindo: dois super-heróis brasileiros, fantasiados, o Banana Kid e seu companheiro de aventura o Carcará, mais novo que ele. Dois tipos diferentes. O Banana é um simplório, pau-mandado, ingênuo às vezes, místico, o Carcará é um jovem esperto, ladino, inteligente, gozador, o que sempre põe em conflito os dois, mas são amigos. Eles têm que proteger Bananópolis, uma cidade imaginária, principalmente do Dragão, seu grande inimigo.

 

Esse roteiro devia chamar a atenção mesmo…

Mas fazer assustava a gente. Como fazer esse filme, cara? O custo? Essa parte tecnológica, como fazer isso, porra? Eu criei uma história complicada pra época, e o pior é que eu já tinha anunciando pra meio mundo: é meu segundo filme. Alguns jornalistas me perguntavam por ele. Alguém deu uma nota que eu ia começar a filmagem, e logo veio um jornalista me entrevistar na LESTEPE. Eu falei demais nesse projeto.

 

Mas e agora? A história existe…
Eu estava conversando semana passada com Rui e nós tivemos a seguinte ideia: eu reescrever essa história, romancear, e ele faria as ilustrações, tipo “graphic novel”, lançarmos em livro. O Rui trabalha pra grandes editoras, é muito prestigiado nelas, eu acho que não seria difícil editar. Mas sempre fica um aperto no coração, um gosto amargo de traição ao cinema, de frustração mesmo, uma ideia que eu tive que abortar — essa história eu escrevi pra ser filme, eu dirigir, na época o Stepan seria o Carcará, assinei até contrato com o Juca de Oliveira, que seria o Banana Kid, encomendei os figurinos pro talentoso cenógrafo Hélio Eichbauer, que me fez belas concepções para os personagens; enfim, cara, eu dei o start na produção, eu estava com uma gana incrível de fazer o filme, um tesão dos diabos, mas a Armênia, que é bem mais racional que eu e Denoy, botou os números na frente, as cláusulas do contrato da Embra, o tanto de retenção das rendas, e viu aquilo era um salto no escuro perigoso pra caramba, um risco… Aí trocamos pro GARGALHADA FINAL, no mesmo regime de financiamento, com as promissórias em garantia, o mesmo valor de duzentos e cinquenta milhões de cruzeiros, tudo igual.

 

Que sensação te dá agora? Trocar um filme pelo outro…

Dá uma certa tristeza, sim, cara, não ter feito o BANANA KID, o projeto estava bem maduro em termos de história, eu já tinha trabalhado, retrabalhado muito em cima dela, trocado opiniões com o Denoy, com o Rui que na época vivia na Hungria, e que me deu muito boas ideias — enfim, o bloco já tava na rua pra filmar. Talvez se eu fosse um cara mais enturmado, com mais gente comigo, produtoras de peso, gente influente, eu teria feito o filme em mutirão, mas eu sempre fui um cara isolado, continuo até hoje, desenturmado, aí a dificuldade aumenta. Mas é fácil falar hoje em dia, em março de 2015, quarenta anos depois… Como eu tava dizendo, nesses anos de 75, 76, 77, 78, eu vivi os piores anos da minha vida — grana mesmo, de dever a bancos, agiota, título ir pra cartório… Quer dizer, o GARGALHADA FINAL nasce nessa dificuldade, é fruto daí, da ideia de ter que fazer um filme rápido com poucos atores, comunicativo, e como sempre com conteúdo, com uma observação humana, essas coisas que me levam a fazer cinema. Sem isso, não vale a pena pra mim. E o GARGALHADA faz parte dessa minha preocupação, de falar do sonho de cada um, do artista, no caso, de sua solidão, falar da esperança, e ao mesmo tempo desse entorno que muitas vezes esfacela o que a gente tem mais de puro.

 

Fala da criação do roteiro.

Pode acreditar, eu escrevi pensando o tempo todo no Fregolente. Isso é não é legal, de repente o ator não pode fazer o filme, não acerta, sei lá… Mas eu não conseguia me despregar da imagem dele. Eu bolava uma sequência, imaginava o cara, uma frase… Não fosse ele o TROMBADA, não sei o que seria. O MARRECO seria o Stepan, tranquilo. Frego e Stepan, meu Deus, que dupla! Dois histriônicos, dois talentos vulcânicos, dois doidos. Mas falando do roteiro, o roteiro teve um longo período de hibernação, já falei disso. Escrevi ele em 74, filmei em 75, e só em 79 entrou em exibição.

 

 

Que balanço você faz?

É o meu filme mais elogiado pela crítica. O mais respeitado, talvez. Algumas críticas são mesmo de envaidecer. O balanço é muito positivo. Alguns críticos foram tomados mesmo pela história, pelos personagens, pela ideia… Te confesso também, eu tenho muito carinho por esse filme. Eu resumi assim no release do lançamento:

 

GARGALHADA FINAL é, na verdade, o meu filme que mais me toca. Pelo que se propõe, pelo que fala do sonho de todos nós. No caso, do sonho do artista — um sonho tão acalentado e solitário quanto vulnerável à transfiguração imposta por um mundo massificado. O filme é, em síntese, um trecho da solidão do artista, de suas impossibilidades e do esvaziamento de suas crenças”.

 

No GARGALHADA há uma necessidade de o homem se integrar à natureza, o que também havia no MARCELO ZONA SUL. A natureza, num como no outro trabalho, assume uma feição de liberdade, de ânsia de vida e paz.

 

Eu tenho trechos de críticas do filme. Vou anexar elas ao nosso papo. Diz aqui:

 

RIO DE JANEIRO

 

 

Um toque de Fellini no “Gargalhada Final”

(Jornal do Brasil, Carlos Fonseca, 19.6.79)

 

Como é bom assistir a um espetáculo que ao mesmo tempo diverte, emociona, comove, dá o recado…” “Gargalhada Final” é um filme muito bom e que deve ser prestigiado pelo grande público…”

(Jornal do Brasil, Carlos Fonseca, 22.6.79)

 

Gargalhada Final” é de longe o melhor filme deste ano, e um dos melhores que apreciei em toda minha vida” “…é uma verdadeira lição de cinema”.

(Tribuna da Imprensa, Visconde de Tivicus, 25.6.79))

 

…um dos bons filmes brasileiros do ano”.

(Tribuna da Imprensa, Carlos Alberto de Mattos, 23/24.6.79)

 

Quando o filme acaba, é como se despertasse de um sonho, do qual quanto mais se acorda e mais obstáculos surgem, mais ele cresce dentro de nós”.

… uma peça importante na defesa de um cinema cada vez mais livre, pessoal e compromissado apenas com seu humanismo…”

(Jornal do Commércio, Lilian Nabuco, 22.6.79)

 

Narrado com emoção e sensibilidade, interpretado com garra e talento por Fregolente e Stepan Nercessian, o filme tempera amargura com emoção e ternura, sem sentimentalismo indefensável”. “A carreira de Xavier de Oliveira é exemplar pela coerência, integridade e sensatez nos quatro longas-metragens que realizou até agora”

(O Globo, Fernando Ferreira, 19.6.79)

 

…uma estrada felliniana”.

(O Pasquim)

 

SÃO PAULO

 

…Xavier de Oliveira é um dos nossos melhores cineastas, realizador, dotado de sensibilidade e criatividades suficientes para sejam que transpostos à tela alguns dramas essenciais vividos pelo ser humano”.

(Jornal do Comércio, Hélio Nascimento, 9.7.79)

 

…suas personagens possuem características simples e objetivas. Seus anseios são universais: apenas um sentido maior para esse louco mundo que sufoca o que há de melhor em todos, a simples vontade de viver dignamente”. “Xavier de Oliveira é um dos diretores mais lúcidos da geração dos anos 7O”.

(Diário do Grande ABC, Heitor Capuzzo, 28.3.198O)

 

O derradeiro trabalho de Fregolente e um dos filmes mais conteudisticamente empenhados de Xavier de Oliveira”.

(O Estado de São Paulo, Rubem Biáfora, 16.3.8O)

 

Gargalhada Final” não é um filme para os dias de hoje, é para amanhã, se houver um dia em que possamos respirar em paz e olhar o passado, com nostalgia, infelizmente”.

(Folha da Tarde (ilustrada), Marcos Vinicio, 19.3.8O)

 

Certo que eu tenho envolvimento com o filme. Mas o que dizer daquela jovem de vinte e poucos anos, que começou a falar da saga dos dois artistas e subitamente parou de falar…para chorar?”

(Hora do Povo, Denoy de Oliveira, 21.12.199O — após uma exibição do filme com debate no CCBB-Rio, 1O anos depois de seu lançamento)

 

… A liberdade de criaturas cósmicas, andarilhos, que não têm horários, não batem cartão e se recusam a comer outra coisa que não a poeira varrida pelos sapatos. “Gargalhada Final” (1979), de Xavier de Oliveira, permanece no cinema brasileiro como a ode maior a esse tipo de experiência”.

A narrativa de Xavier é acachapante, intensa. Quando Trombada fala da morte da esposa, os dedos do velho evoluem como se caíssem do trapézio, a voz emocionada faiscando no ar. Fregolente, ator rombudo e rodrigueano, nesta hora se transforma em menino. Ele se aconchega em alguma saudade que o personagem guarda dentro de si, congelada como se fosse eternidade”.

Andrea Ormund, Revista Cinética, Novembro de 2011

Porto Alegre

 

Com “Marcelo Zona Sul”, “André a Cara e a Coragem” e o “O Vampiro de Copacabana” — seus três longas metragens anteriores — Xavier de Oliveira firmou conceito como um dos mais importantes e sensíveis realizadores brasileiros da atualidade”

(Folha da Tarde, Ivo Egon Stigger, 9.7.79)

 

Gargalhada” é uma alegoria sobre a esperança e a salvação através da arte”. “Gargalhada Final” emociona pela sua piedade pelo ser humano”

(Correio do Povo, Sucursal do Rio de Janeiro, Seth Mydans, 8.7.79)

 

…sua temática continua a mesma: o homem só, sem recursos e sem chances de levar adiante seus sonhos”. “Xavier de Oliveira realiza poéticos romances. É um contador de histórias dos infelizes, dos marcados, dos românticos, e daqueles que, na sua miséria, descobrem a grandeza humana revelada ao espectador em tom de humildade e experiência”.

(Jornal de Cinema, S. Lerrer, junho de 79, nº 1)

 

Com seus três filmes anteriores — “Marcelo Zona Sul”, “André a Cara e a Coragem” e “O Vampiro de Copacabana” — Xavier conquistou a fama, justa, de ser um realizador sensível e inquieto, cineasta preocupado em estudar e reflexionar os valores e comportamento da sociedade brasileira”.

(Correio do Povo, Ivo Egon Stigger, 12.7.79)

 

 

 

Curitiba, Paraná

 

…é o filme em que Xavier foi mais feliz até agora na realização dessa proposta de reflexão”. “Quem admira o cinema brasileiro não pode deixar de ver este filme…”

(Diário do Paraná, Francisco Alves dos Santos, 12.3.8O)

 

 

Você vê, com tantas críticas boas, o filme não foi aceito em 78 pela Comissão de Seleção do Festival de Gramado — vá entender… Infelizmente, o “GARGALHADA” foi muito pouco visto, teve um lançamento pela Embrafilme muito sofrível de cinemas. Nesse sentido, não foi um filme bem-aventurado.

 

Teve um crítico que falou de influência felliniana…

Minha influência é mais Itapetinga, já te falei disso. Itapetinga é uma cidade da Bahia, no sudoeste, eu vivi lá de 1959 a 62. Eu era funcionário do Banco do Brasil concursado em São Paulo — me mandaram pra lá. Nem no mapa tinha, tinha Itambé que é perto, a população era de 20 mil habitantes. Hoje deve tá muito maior. Dez anos depois voltei lá com a Armênia e já achei tudo diferente, o trânsito nas ruas, encontrei poucos amigos, a agência do Banco não era mais onde era, enfim… Na época era bem pequena a cidade, ficamos 10 meses sem luz, não tinha televisão, mas aprendi muito lá, uma vivência humana que puxa vida! Tive uma proximidade maior com os seres humanos, seja com puta, com um cara qualquer — você tinha mais tempo… Imagina, eu saí de Ipanema pra lá. Sente o contraste. Mas lá vivenciei muito o negócio do circo, do artista ambulante, até escrevi sobre isso pro jornalzinho de lá. Eram comuns os artistas ambulantes vindos de cidade em cidade, com suas fantasias rotas, e espetáculos de rua inocentes. Isso tinha sempre. Os circos mesmo… Circos mambembes. Aprontavam aquele alvoroço na chegada, acampavam, dois, três espetáculos, e seguiam em frente pra outra cidade. Eu assistia a tudo isso. Quer dizer, o GARGALHADA não tem nada a ver com Fellini — tem com essa vivência! O Denoy, meu querido irmão que se foi, escreveu um texto pro jornal Hora do Povo, de 21.12.90, sobre o GARGALHADA… O Denoy é suspeitíssimo, mas vou ler o texto:

 

… Mas a grande noitada foi o debate do filme “Gargalhada Final” de Xavier de Oliveira, com música minha e do grande amigo e músico Ayrton Barbosa prematuramente falecido. No filme, Xavier, também autor de argumento e roteiro, narra caminhos e descaminhos de uma dupla circense, pai e filho, que partem por estradas sonhando com o eldorado paulista. “Trombada” (Fregolente) é ventríloquo e sonha com um grande circo estável; e “Marreco”, palhaço e filho (Stepan Nercessian) sonha em trabalhar na televisão. Finalmente, os dois… sonham. E o filme é exatamente sobre o sonho. Certo que eu tenho envolvimento com o filme. Mas o que dizer daquela jovem de vinte e poucos anos, que começou a falar da saga dos dois artistas e subitamente parou de falar… para chorar. Um outro jovem também falou desvarios, frustrações e esperanças.

“Gargalhada Final” foi totalmente produzido por Xavier que entregou o filme pronto a única distribuidora daqueles dias: a Embrafilme. O filme foi rotulado pelos experts como “Sem apelo de mercado”, ou seja, sexo, violência e atores globais; não falava de um mundo confeitado com celofane e embebido pelos trejeitos fílmicos da moda. Era pura e simplesmente um filme sobre o sonho de todo ser humano. Exibidor não acha que isso renda, pelo menos, sem aqueles apelos que conhecemos. Foi com muita dor que vimos nosso trabalho ser esmagado pelas convenções mercadológicas. Dez anos depois, uma plateia jovem rirá e se emocionará nos 90 minutos de projeção e espontaneamente cobrirá o realizador do filme com um grande manto de amor e gratidão. “Trombada” e “Marreco”, animais diluvianos, rindo à beira da próxima extinção, são os cantores da trágica desaparição do encontro caloroso e humano, trocado pela fria, cada vez mais solitária e anônima compressão tecnológica. Invadindo uma cidade do interior paulista, ainda naquele tempo sem as negras aranhas de TV no telhado das casas, Trombada anuncia seus maravilhosos números conclamando a que todos compareçam, “antes que as antenas de TV risquem os céus como raios e tudo acabe e tudo termine”. Hoje, o filme “Gargalhada Final” é mais necessário e mais atual. Nunca o sonho foi tão circunscrito às neuroses, aos momentos de exceção. Vivemos mergulhados na eficácia, na desvairada competição, no consumo explícito e já nem conseguimos ter forças para gravar o sonho das noites mal dormidas. Acordados, não sonhamos no sentido grandioso da palavra; já “coisificados”, procuramos unicamente manter o nariz à tona, em desesperado gesto de sobrevivência biológica.

 

E escreveria também o Denoy no release, pro lançamento do filme:

 

Gargalhada Final — uma profecia? — março de 1979. (Trecho).

 

Este último filme do Xavier, além de coerente com toda sua obra, reafirma sua posição em defesa de um cinema cada vez mais livre e compromissado apenas com seu humanismo. Os condicionamentos estão aí mesmo: o garrote da censura, a prevenção de uma parte do nosso público altamente colonizado, e ultimamente a onda do cinema “esquemão”, vamos assim dizer, que subordina a criatividade do filme a uma chamada “lei de mercado”.

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Não se trata de impedir ou criticar experiências bem sucedidas comercialmente. Ao contrário, o que se quer dizer é que elas também são necessárias. Elas devem ser instrumentos de libertação e não sufocadoras da produção nacional, que a meu ver só terá sentido na sua diversificação de propostas.

O filme “Gargalhada Final”, sob esse aspecto, é altamente contestador. Ele apresenta a longa caminhada de uma raça em extinção. Neste filme, Xavier se preocupa com a perda da identidade que ameaça a cultura brasileira. Trombada, Marreco e o boneco Aflito são perdedores da massificação, da ideologia do consumismo, são excrescências na complicada teia da sociedade dos negócios e das chamadas “políticas realistas”. Eles são as vítimas de um sistema que optou pelo distanciamento das referências humanas e — como sebento usuário — se compraz na manipulação de dados eufóricos, animadores, que nunca se transferem para a felicidade das pessoas. E o que é mais aterrador é que toda a alegria e tristeza desses três personagens são narradas em campinas, nos ermos, a céu aberto, num grande circo de lona azul.

 

Como você compara o GARGALHADA com seus outros filmes?

Se assemelha, acho que sim, se assemelha com outros filmes que fiz (“MARCELO ZONA SUL”, “ANDRÉ A CARA E A CORAGEM” e “O VAMPIRO DE COPACABANA”), quanto à proposta, eu acho isso: a proposta une esses filme. A proposta de discutir o homem comum, o homem diante de impossibilidades, diante de um contexto muitas vezes hostil, áspero, pro qual ele não contribuiu em nada, nem tem condições de modificar… Eu não faço filmes elitistas, herméticos. Faço eles simples, linear, sem complicação, com uma proposta cultural, humana… “GARGALHADA FINAL” é uma fabulação. O tratamento da história, os personagens, a narrativa, tudo leva a essa visão não realista. Certa liberdade infantil dos personagens, meio ingênua, irresponsável, dá à história um tom fantasioso, de representação mesmo, de sonho, como aquele momento que o Trombada simula sua própria morte, e fica aquela dúvida: verdade ou mentira? Ou quando ele relembra o filho Marreco, de pequeno, e daí ele cria uma farsa quando vê um menino distraído, num quintal. Quer dizer, há essa coisa farsesca, e isso me agrada.

 

E a filmagem, a realização?…

Eu tinha uma equipe bem pequena, diminuta, vamos dizer: 12 pessoas. Isso não é nada hoje em dia. Pela primeira vez eu filmava com outro fotógrafo que não o Edison. Foi com o Ruy Santos, uma figura particularíssima no cinema brasileiro, um senhor na época, já de cabelos brancos… Bom amigo o Ruy. Ele tinha trabalhado no mítico filme LIMITE, de Mário Peixoto, como assistente do fotógrafo Edgar Brasil — imagina, em 1931! Trabalhou do DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda, no governo Getúlio Vargas, como cinegrafista; trabalhou com o diretor americano, o célebre Orson Welles, no documentário “É tudo verdade”; filmou dezenas de longas, de curtas, dirigiu curtas e alguns longas; fez filmes para o Partido Comunista, como o lendário “24 anos de luta” — era amigo do Prestes, do Oscar Niemeyer, do músico Radamés Gnattali, Dorival Caymmi, do pintor Scliar, Jorge Amado — ele gostava de cultivar amizades.

allmix4uGargalhada-Foto5 (2)Fez o “GARGALHADA o FINAL” e “O VAMPIRO DE COPACABANA”, comigo. Era uma figura o Ruy, um romântico, apaixonado pelas mulheres, “o poeta da imagem”, como disse o articulista ao fazer um artigo sobre ele, na sua morte, em 1989. Dou destaque também na equipe à minha mulher, Armênia Nercessian, que fez Assistência de Direção, Figurinos, Cenários e Maquiagem — ela foi um dínamo na equipe.
Também destaco o Diretor de Produção, o Walter Schilk, que, de dentro do carro e num golpe de vista, descobriu com faro de produtor, no caminho de Guaratiba, aquele restaurante do final em forma de circo, um achado fundamental, onde acontece o roubo da moto da polícia e fuga dos personagens. Mas você perguntou sobre a filmagem, não foi?

 

É…

Gargalhada Final - Foto - Fregolente e Stepan - entram na cidadNós saímos — esse grupinho que eu falei — saímos com poucos carros, com os equipamentos de filmagem, estrada afora, em caravana — nós éramos o próprio circo em turnê pelo interior, artistas ambulantes. É um filme de estrada, do “já filmamos aqui, agora vamos em frente”. Muitas locações foram surgindo, caminhando. Daí era difícil montar plano de produção — apenas aquele mínimo necessário pra se armar a filmagem do circo, da casa de mulheres… Filmamos aqui em Pedra de Guaratiba, mas rodamos mesmo pelo Estado do Rio — o laranjal foi em Itaboraí, o riacho em Suruí, filmamos em Tanguá, Ria Bonito, Mauá, depois partimos pra São Paulo, pelo interior, perto da divisa, em Areias, — o prefeito de lá nos ajudou muito, o seu Paulo Sampaio, o povo também… — lá se passa grande parte do filme. Filmamos também em São José do Barreiro, Bananal… Enfim, a gente não teve nenhum rolo na filmagem — tipo chuva, foi uma filmagem muito cansativa, filmar naqueles descampados, distâncias grandes, debaixo de um sol de verão, e a gente tinha que ter cuidado com o Frego, ele não era mais jovem, pele muito branca, eu botei um cara da produção junto dele com guarda-sol, pra onde ele ia, o cara ia junto, chegou a irritar ele — o Frego era meio difícil, impaciente, tinha que levar ele com jeito, mas tudo bem, ele foi fundo no papel, correu, brigou, dançou, pulou carniça, andou de moto, não reclamou nada, — impressionante como ele se jogou no filme! É memorável o trabalho de ator do Dr. Ambrósio Fregolente, médico psiquiatra (ele odiava o nome Ambrósio).

 

Ele foi artista de circo?

Gargalhada Final - Foto - Stepan-Frego-Rafael e Chico SantosNão sei disso, creio que não. O que acontece é que aquele talento vulcânico nele, o vozeirão, o jeito às vezes meio expressionista de representar, tudo tem muito a ver com os atores de circo. Se ele não foi de circo, poderia ter sido, como também O Rafael de Carvalho, outro monstro sagrado, e que tem a mesma postura do ator circense. .

 

Dizia eu numa entrevista no lançamento do filme, lá no sul.

 

… Em São Paulo, Trombada e Marreco serão fatalmente devorados por uma engrenagem desumana e impiedosa sua arte primitiva não terá vez em meio à padronização de gostos, à massificação da arte. Evidentemente, a luta deles é inglória, sobretudo do Trombada embora ele fale com euforia da ida pra grande cidade, ele sabe, no fundo, que sua arte está em extinção. Sinal disso é o boneco Aflito atirado na estrada. Como despedida de um sonho.

 

 

Aliás, eu gostaria que você falasse um pouco do Aflito. Pra mim, ele é um personagem, quase tão importante quanto os dois…

Sem dúvida que é. O único lúcido na história. Ele faz a vez de testemunha, ou consciência do Trombada. Eles dialogam, o Aflito e o Trombada, diversas vezes — um alter ego, vai ver… Ou mais que isso, o Aflito sabe o que vai acontecer com os dois no grande centro, na vida enfim. Nenhum happy-end — pelo contrário. Mas os dois seguem, e com a moto roubada do polícia, fazer o quê? O Aflito é atirado na estrada, e lá fica, só, roto, abandonado.

 

 

 

É curiosa aquela aparição final de certos personagens na estrada…

… Uma rememoração, a ideia foi essa… Surgem a eguinha, os meninos do futebol, o dono do circo, do burrico benzido… — esses tentam destruir os dois com tiro de espingarda, destruir o sonho deles. Esses personagens aparecem como se fosse o fim de um espetáculo circense, cada um se apresentando ao público — é uma alegoria, enfim.

 

E os outros atores? Você quer dizer alguma coisa?…

Sim, falar do Stepan… Que é tão principal como o Frego. O Stepan tem um magnetismo muito grande em cena. É o tipo do ator volitivo, quer dizer, explico melhor, ele se desconstrói enquanto ator, ele segue a direção, rende muito mais quando é dirigido de uma maneira consciente. Daí que ele explode. Improvisa, dá o melhor de si. Ele não é aquele ator cerebral, que já vem cheio de releituras do personagem, de pré-moldagens, já com uma composição meio que cristalizada. É o justo oposto, ele se entrega, desaparece, fica apenas o brilho do personagem em cena, o que é fantástico. Em certa entrevista, o Marcello Mastroianni contou seu processo de trabalho. Essa palavra “processo” é até forte demais, cai mal pra ele, é ridícula, pra quem, no caso do Mastroianni, e do próprio Stepan, é ator puramente intuitivo — isso ele deixou claro na entrevista. Além disso, filmar com Stepan é muito agradável e sempre bem humorado, piadista, contador de causos, uma inteligência brilhante — ele cria um clima na filmagem descontraído, brincando com os técnicos, com os colegas atores, ele diverte, é uma atração à parte na equipe. Eu digo que o Stepan hoje ultrapassou a barreira do ator e virou um personagem da cidade, — ele será lembrado assim, de tal maneira ele circula no Rio, tem o gosto popular daqui, as manias, é benquisto. Neste momento, ele “arrebenta” interpretando o Chacrinha no teatro. Outro ator incrível do “GARGALHADA” é o Rafael de Carvalho. Bendita hora eu convidei o Rafael pra fazer o “dono do circo”. Eu já conhecia ele bastante de teatro e e de cinema. Que ator fulgurante! Que ser humano! — infelizmente falecido. No “O BAIANO FANTASMA”, filme do meu irmão, ele está soberbo. Cito também o Jota Barroso, que fez excelente papel como o “surdo-mudo” — no nosso primeiro encontro, ele me sugeriu trabalhar sem a dentadura de cima e de baixo, e eu achei que esse despojamento dele somou muito na graça do personagem. Cito também a Denise Bandeira que fazia ali sua estreia como atriz em cinema, e a bela Leila Cravo. Por último, a Pichin Plá, minha amiga — que interpreta a prostituta — e que já havia trabalhado comigo no “MARCELO ZONA SUL”, e no “ANDRÉ A CARA E A CORAGEM”.

 

O Fregolente não chegou a ver o filme pronto…

Gargalhada Final - Foto - Fregolente c espingarda-aChegou a ver sim, felizmente. Nós fizemos uma sessão especial pra ele, lá em Mendes, onde ele vivia com a mulher, dona Cremilda, e dava plantão no Hospital de lá, como psiquiatra. Fizemos a sessão no cinema local, convidamos a cidade, levamos alguns atores, e foi muito bacana. Ele se emocionou muito com o filme, chegou a nos dizer isso.

 

Numa entrevista em Mendes ele dizia, meio vaticinando:

 

Eu tenho a impressão que com GARGALHADA FINAL eu estou me despedindo”.

 

Poucos meses depois, ele morreria.

 

Também tenho que dizer que depois da filmagem, num longuíssimo período, antes de dublarmos, ele ficou muito irritado comigo. Muito magoado. Rompeu comigo, e com toda razão. Nós terminamos de filmar mais ou menos em abril de 1975… Acontece que eu havia assinado um contrato com a ATLÂNTICA, do exibidor Luiz Severiano Ribeiro, um contrato de produção do “O VAMPIRO DE COPACABANA”.

Numa das cláusulas dizia

 

… a filmagem deverá iniciar-se antes do dia 15 de Maio de 1975”.

 

E mais à frente:

 

Compromete-se a LESTEPE a entregar à ATLÂNTIDA, ainda às suas expensas e no prazo máximo e improrrogável de 180 (cento e oitenta) dias, contados do início da filmagem, a primeira cópia sincronizada do filme e trailer, já censurado…”

 

Dizia mais:

 

A suspensão dos trabalhos de produção do filme, por um prazo superior a 30 (trinta) dias consecutivos, importará no imediato reembolso, pela LESTEPE, em favor da ATLÂNTIDA, das parcelas já pagas até a data da suspensão, nos termos da cláusula 4ª (quarta), letra “a”, acrescidas de correção monetária e dos juros de mora legais…”

 

Esse era o garrote que eu tinha colocado sobre meu pescoço, um contrato que eu tinha que cumprir! A Atlântida entrava com 25% do filme, totalizando Cr$ 112.500,00 (cento e doze mil, e quinhentos cruzeiros). Um ótimo negócio pra mim… Me associar com um Grupo poderoso e correto — a garantia de pagamento das parcelas nos dias certos, e da exibição do filme. Só que eu não tinha como bancar os 75% restantes. Tive que negociar — mas isso é outra história.

 

Voltando ao Fregolente…

Pois é, o Frego!… Ele estava muito puto comigo. Ainda mais que aconteceu um incidente chato na filmagem. Esqueceram a cartola dele no meio do mato, uma cartola de estimação — ele estava sempre com ela em cena. Alguém esqueceu — é o preço que se paga por ter uma equipe pequena, onde sempre acontecem esses furos de produção. Mas o problema com ele não era esse. Vê só: eu comecei um filme, sem terminar o outro, na cabeça dele eu tinha abandonado o GARGALHADA — não dava mesmo pra entender. Eu só fui pegar de novo o GARGALHADA em 1977. Comecei a montar, sem dinheiro — o VAMPIRO havia entrado em cartaz em setembro de 1976, e a renda ficou muito aquém do que eu pensava.

Durante a montagem, a gente viu que havia necessidade de refilmar uma sequência, lá no interior de São Paulo — problema com o negativo. O Fregolente se recusou a ir, não houve jeito. Fomos, então, de qualquer maneira, com uma equipe bem reduzida, e fiz o dublê dele. Filmei a cena bem distante, em plano geral, de costas, e com o boneco Aflito no pescoço — ninguém percebe que sou eu. Enfim, o clima entre mim e o Frego ficou assim: péssimo. Ele mandou me avisar: não ia dublar filme nenhum. Entrei em pânico. Imagina pôr outro ator pra dublar o cara, seria um horror. Montamos o filme, preparamos tudo pra dublagem. E passei a conversar com a dona Cremilda. Falei pra ela que era importante o Frego dublar depois de todo um trabalho maravilhoso que ele fez, que seria terrível pôr outra voz nele. Ela concordou, ficou do meu lado, e começou amaciar o Frego. Isso levou um tempo, talvez semanas, mas me parecia um século. E eu insistia com a dona Cremilda, até que num dia ela me deu o recado: ele topou se encontrar comigo lá em Mendes. Aí, eu fui com ela. Chegamos na casa deles, ela chamou: “Frego!” Ele estava lá pros fundos — ele ouvia, mas não queria responder. Ele sabia que eu tinha chegado. “Frego, o Xavier tá aqui!”. Até que ele respondeu, agressivo, em voz alta: “Que que esse cara quer comigo?”. “Conversar”, respondeu ela. Finalmente, ele chegou na sala, meio alcoolizado — um velho problema nele — mas na nossa filmagem ele nada bebeu. “Que que você quer!? — me perguntou furioso. E me esculhambou de cima a baixo, e eu, sem um pingo de raiva dele, só ouvia, e pensava na genialidade daquele cara, e te digo até, se ele quisesse me dar porrada, tudo bem, eu apanhava na boa, só ia me defender um pouco pra ele não me bater demais… Eu queria que ele dublasse, concluísse o trabalho que fez. Numa brecha do esporro, falei pra ele: Frego, você fez um trabalho maravilhoso, eu queria que você dublasse. Imagina pôr outra voz em você! Aí ele serenou um pouco. Se sentou. Depois de um silêncio, me disse: “Vamos até o hospital, preciso ver uns doentes”. E fomos até lá. Fomos conversando. No hospital, ele cuidava de um setor de doentes mentais. Naquela altura, ele já estava mais bem humorado, tanto é que falou umas graças pros enfermeiros, pros loucos também, e assim, num clima mais ameno, retomamos o nosso trabalho no “GARGALHADA FINAL” — ele tinha um pequeno apartamento em Copacabana, de modo que ficar dias no Rio dublando não era problema.

 

Ele dublou direitinho?…

Divinamente… Bem humorado. Problema nenhum. O Stepan dublou o boneco Aflito…

 

Aquela voz é do Stepan?

É. Filme pronto, nós fizemos aquela sessão em setembro de 1978, lá em Mendes. Foi emocionante, já falei disso. Cinco meses depois, o Frego morreria. Foi um choque muito grande pra mim, puxa vida! Não tem muito tempo, fizeram um documentário sobre ele, e me entrevistaram. Aí comecei a falar do Frego, te digo, cara, me emocionei de verdade, me vieram lágrimas. Ele era um ator único, peça rara, ninguém ocupou o lugar dele. Nem vai… Atrás daquele jeitão impulsivo, temperamental, impaciente, havia uma alma sensível, quase infantil… Bom, aí ele morreu em março de 79, e a Embrafilme, que já tava armando a distribuição do filme, me pediu um texto sobre ele, pra colocar no release. Eu escrevi assim, um trecho.

 

Fregolente foi enterrado ontem. A Embrafilme suspende a impressão do “press-release”, a fim de adicionar um texto sobre o ator. E me pede pra escrever.

Ainda estou como no meio de um pesadelo. Difícil imaginar aquele cara morto. Com seu sorriso sem mais tamanho, seu vozeirão, contador de histórias, temperamental, criança que fácil chegava à emoção.

E fico relembrando uma porção de passagens dele nas filmagens. No fundo era uma alma doce que se comprava com carinho e mais nada. Durante dois meses filmamos pelo interior do Estado do Rio, de São Paulo, percorrendo mais de quinze cidades, filmando em rios, pelo meio dos matos, nas estradas, laranjais, descampados, debaixo de um sol de verão, e finalmente em Areias, São Paulo. Às vezes em condições difíceis de trabalho, e o Frego sempre rindo, imitando a mim e ao Ruy, fazendo piada em cima de piada junto com o Stepan.

 

 

Frego não tinha paciência de ser dirigido (“Quando o diretor se distrai, o ator vai e cria”, frase de seu livro). … muito emocionado assistiu a uma primeira exibição que fizemos em Mendes pra ele e D. Cremilda, sua esposa. Saiu da sala chorando. “Vocês me matam”, me dizia.

Faço ideia quantos sonhos não levou consigo o Frego inquieto, rebelde, sensível. A arte cênica ficará com uma eterna dívida com ele que poderia ter dado muito mais, e foi solicitado tão pouco de seu talento. É uma pena. Pra mim, ele morreu de triste. O coração foi apenas o pretexto. Triste por não ter acesso nos últimos anos ao trabalho conforme seu talento e sinceridade de artista exigiam. Triste, só, e injustiçado. E seu enterro espelhou sua solidão poucas pessoas. Alguns cineastas, ninguém de teatro. …….

(Rio, 21 de março de 1979).

 

 

Hoje ele é nome de rua: Rua Ambrósio Fregolente, na Taquara. Se eu pudesse, eu trocaria o nome pra Rua Ator Fregolente, — ele odiava esse Ambrósio.

 

 

Bem, Xavier, filme pronto, como foi a censura?

Nenhum problema, 18 anos sem corte.

 

Surpresa?

Não muito. A verdade é que em 79, aí ditadura já começava a entrar pelo ralo, entende? — a “fazer água”…

 

A minar…

É, a mordaça já não apertava tanto, começou a afrouxar… Você vê: em 74, com o Geisel, já teve eleição direta. A Lei da Anistia veio depois… Daí que o tempo era outro, a censura tava mais mansa… — depois de 5 anos presa, a peça do Vianinha, “Rasga Coração”, foi liberada. Em 79. Quer dizer, o GARGALHADA já pegou um clima melhor. Foi tranquilo…

 

Agora a música, Xavier. A música é um capítulo especial nesse filme, não acha?

 

Claro! E como! Tudo por causa dessa aura circense, a origem é o circo, é a matriz. A música do filme não tem influência de “A” ou de “B”, como disseram uns críticos. A influência, a fonte é o circo. Ela foi feita pelo Airton Barbosa e pelo meu irmão, Denoy — os dois com forte veio popular. Já tinham trabalhado juntos na trilha do filme do Denoy, o “AMANTE MUITO LOUCA”. A musica do GARGALHADA é excepcional, tem quase a força de personagem de tal modo ela encorpa, dá vida a certas sequências. Por exemplo, a chegada do Trombada e do Marreco na cidadezinha — a tal que não tinha televisão. No final também, quando eles fogem na moto roubada do policial, e caem na estrada… — e outros momentos. Chama atenção o seguinte: ela não é música de incidental — grande parte não é… Ela participa das cenas sem agredir ou se pôr acima da imagem — ela constrói junto. É como sinto a música de circo, ela sublinha os fatos, às vezes o repique do tambor é justo pra chamar a atenção prum troço que vai acontecer. A gente vê isso na primeira aparição no picadeiro do Trombada, ele com o boneco Aflito, quando pela boca do boneco ele ofende o dono do circo.

 

A música ganhou prêmio…

 

Sim, ganhou, no Primeiro Festival do Cinema Brasileiro de São Paulo, em 79, prêmio de Melhor Música. Mas eu queria falar um pouco mais do Airton — hoje também ele é nome de rua, na Taquara. Ele foi uma pessoa que admirei muito, e que talento, cara! Tem coisas que não dão pra entender, lógica nenhuma: ele morreu com 37 anos, no auge, câncer generalizado… puta que pariu! Uma pessoa ótima, sorridente, simples, amiga… — é difícil entender… Ele tinha formação erudita, mas aberto pro popular… — foi essa a marca que ele deu pro Quinteto Villa-Lobos, que ele criou. Moramos perto um do outro muito tempo no Jardim Botânico, a gente caminhava na Lagoa… Nossos filhos eram amigos, a mulher dele, a Valdinha, pessoa incrível, nossa amiga até hoje. Sugeri pra ele usar no filme trecho da Bachiana nº 8, do Villa-Lobos, com jeito circense, e ele topou, e fez uma transposição belíssima… — aquela cena em que o Trombada e o Marreco dançam na relva, e vão embora, — as crianças assistindo… Estive com a dona Arminda, viúva do Villa-Lobos, no Museu Villa-Lobos, pedindo essa autorização — ela foi muito gentil, me presenteou com diversos long-plays do marido que tenho guardado até hoje. Mas ainda falando do Airton, eu tenho uma bela imagem dele, daquele mulatinho gênio… Foi na gravação da música do filme — ele dentro do estúdio, tipo aquário, com fone de ouvindo, de batuta na mão, regendo a orquestra.

 

 

A apresentação também do filme… Aqueles desenhos…

 

Ali é o Rui, meu irmão Rui de Oliveira — ali é barra!… O cara é um mago no desenho. Ele tinha acabado de chegar da Hungria, depois de seis anos estudando artes gráficas lá — ele chegou aqui com uma fúria de brasilidade impressionante, e aí me fez aqueles desenhos que merecem um pôster. Lindos!

 

Xavier, vamos encerrar aqui o “GARGALHADA”, já tem bastante coisa. Eu só queria que você explicasse uma coisa que tá me grilando. Vê só: você escreve o roteiro em 1973, 1974, assina contrato com a Embrafilme em 1974, filma em 1975, e o filme só é lançado em 1979. Que diabo foi isso?

 

É esquisito mesmo. Muito tempo, né? O que acontece é que esse foi momento muito difícil pra mim. Esses anos aí. Difícil de grana, sempre grana — só eu e minha mulher sabemos. O Denoy tinha ido pra São Paulo, ele foi em outubro de 74. Eu e ele é que segurávamos a peteca, fazíamos as transas de banco, crochê bancário, como se diz — pega dinheiro num pra pagar o outro… Era Banco do Brasil, de Minas Gerais, Lar Brasileiro, Banco da Bahia, Andrade Arnaud — uma porrada deles, um inferno aquilo. Mas nunca título nenhum meu foi pro “pau”, ou dei problema pro avalista — eu sabia fazer o crochê, cara, dever é uma arte…

 

Tem uma carta pro Rui na Hungria que você diz assim…

Depois da filmagem, fiquei bastante no escritório contornando nos bancos a nossa situação financeira é bastante delicada… Tenho vivido assim: correndo de um banco pro outro, controlando as parcas finanças, os credores…

 

É isso mesmo. O que acontecia é que no caso do GARGALHADA a Embrafilme financiava uma parte, ok, vamos dizer 25%, 30% do filme, tudo bem, mas é o restante? Tem coisas que você cobre com capital trabalho. Por exemplo, o fotógrafo, o Ruy Santos, tinha 10% do filme, o Norberto — que locava equipamentos, meu amigo, meu compadre… — tinha mais 10%. Quer dizer, eu fatiava o filme, mas tem uma hora que você tem que pôr dinheiro mesmo, tutu vivo, aí que entravam os bancos. E você tem que comer também, cara!… Nos créditos do GARGALHADA e do VAMPIRO, naqueles agradecimentos, o que tem de gerente de banco!…

 

Tem um bocado de nome…

 

… Gente amiga, que gostava de mim, dos meus filmes… Tinha boa vontade comigo. Mas eu sempre paguei tudo certinho… Quer dizer, esse período foi difícil pra cacete. O GARGALHADA, depois das filmagens, eu fui fazendo de pouquinho… Ainda mais que tive que fazer o VAMPIRO no meio — aí danou tudo. Eu cheguei num ponto mesmo de estrangulamento, Oficial de Justiça tocando minha campainha às 7 da manhã… E eu sozinho, como te disse, o Denoy tinha ido pra São Paulo. A Armênia, nessa altura, já tinha voltado a trabalhar nas Nações Unidas, e dava aula na UFRJ, no Largo de São Francisco. O meu querido tio Ignácio — que me ajudava na produtora — já era um senhor, aposentado, de vida certinha, não tinha costume de dever, ainda mais grana alta! Não era do ramo. Ele era o gerente da LESTEPE, controlava o dinheiro. O tio ficava aflito, coitado, chegavam aqueles avisos do Cartório de Protesto, ele botava em cima da minha mesa: “Aí, Chico, vê só o que chegou”. Eu olhava aquela zorra, e dizia pra ele: calma, tio! Vamos lá em baixo tomar uma! E íamos. Tomávamos umas caipirinhas, e voltávamos pra guerra: Tio, o senhor faz isso, isso — deixa que isso aqui eu mesmo cuido, eu falo com os caras, dou um pulo no cartório, essa outra encrenca aqui eu pago uma parte… Calma, tio! E empurrávamos com a barriga. Só que eu devia também a agiota, um tal de Ruy Martins, nunca mais esqueci o nome do escroto — o sujeito tinha uma voz metálica, de falsete…Dez dias antes de vencer o pré-datado ele me ligava, um dia antes também, uma assombração. E vê bem, no meio disso tudo eu tocava o “GARGALHADA FINAL” lá sei como! A renda do “O VAMPIRO DE COPACABANA” não foi lá essas coisas. Comecei a ter problema de pressão alta. Principalmente à noite. Muitas vezes. Eu já nem acordava a Armênia — eu me levantava, ia na garagem, pegava o carro, e ia direto pro Miguel Couto. Lá me medicavam, faziam exames, eu ficava em observação, e pronto. Só que numa madrugada, a Armênia acordou, não me viu e se assustou, mas imaginou logo: ele tá no Hospital. Telefonou pra um amigo que foi até lá — ela mesma não podia ir, nossos filhos eram bem pequenos. Enfim, eu só via uma saída pros meus dramas de grana — isso eu pensei, lá sei quando: pedir na EMBRAFILME um reajuste no meu contrato de distribuição — avanço sobre a renda — eu já tinha feito dois, é bom que eu diga. O último em 77. Mas era minha chance, cara. A única de terminar o “GARGALHADA” — esse aditivo… Eu não precisava de muito, filme barato, mas precisava mesmo… O Diretor-Geral da Embra era o cineasta Roberto Farias. Aí entrei com pedido, protocolei lá… Só que minha situação apertava aqui, as dívidas, cada vez mais preta. Eu não tinha saída… Não tinha pra onde correr. Banco… eu esgotei tudo. Aquele crochê que eu fazia, aquilo já era. Minha saúde mesmo, eu tinha medo… enfarte com 40 anos! Aí veio a resposta da EMBRAFILME — negativa. Caí em desespero. Puta desespero. Enxerguei mais porra nenhuma. Eu tinha esperança no reajuste, tinha fé… Mas não me deram, cara. Negativo. O Denoy soube do sufoco, veio pro Rio… A gente se reuniu. Eu, Rui, minha mãe, Denoy… Tomamos uma decisão que puxa vida! Dói até hoje. Vender o nosso apartamento de Ipanema… Pagar as dívidas. Minhas dívidas… A mamãe, coitada, concordou. Sabe lá por dentro o que ela chorou por isso… — único bem de família. Mas concordou. E chorou mesmo por dentro, enquanto viveu, pagando aluguel. Tem mais: a gente vendeu por um preço aviltado. O cara que comprou, um comerciante famoso de Ipanema, sacou o meu sufoco, deve ter sacado… — o puto trouxe uma maleta cheia de dinheiro e abriu na minha frente… O apartamento é o da Rua Visconde de Pirajá, 455, apartamento 202, onde vivemos — eu, meus irmãos, minha mãe — por muitos anos, e onde filmei o “MARCELO ZONA SUL”.

É claro que a negativa da EMBRAFILME levou a gente pra decisão tão drástica. Um reajuste, um reajuste qualquer, um aditivo, daria pra gente terminar o filme, nada anormal… — seria tudo diferente. Não vou aqui me lamuriar… O tanto que esse troço me abalou na vida. Uma culpa que nunca pude reparar. Mas queria dizer também o seguinte: o Diretor-Geral era o Roberto. Mas não quero pôr nele nenhuma culpa, direta ou indireta. Não havia razão — pessoal, nenhuma. O Roberto foi a primeira pessoa que procurei quando ganhei um festival de cinema amador do Rio, me pondo como roteirista. Ele me acolheu. Trabalhamos juntos por um dia ou dois num roteiro do Roberto Carlos, mas logo fui trabalhar com o irmão dele, o Reginaldo, no “Os Paqueras”. O primeiro salário que ganhei em cinema foi na empresa dele — a Refefê era uma escola de profissionalismo. Quer dizer, sempre tive boas relações com os Farias, e eles comigo. O que aconteceu foi coisa da área administrativa da Embra, onde diversas pessoas opinam, influenciam. Isso eu sei, é verdade. Mas não posso deixar de dizer que a administração do Roberto me deixou uma sequela desgraçada.

Só pra terminar, cara, eu queria dizer, faço questão, queria dizer que as rendas do “GARGALHADA FINAL” pagaram todas as dívidas com a EMBRAFILME, que nos devolveu todas as notas promissórias assinadas como avalista pelo meu saudoso e bom amigo José Rubens. A EMBRAFILME fechou as portas em 1990, sem que a LESTEPE devesse um centavo a ela, o que não deve ter acontecido com muitos produtores.

 

Xavier, você quer dizer mais alguma coisa?

 

Não. Chega. Vou dizer, sim, só uma coisinha. Como fato humano, como acontecimento humano, como circunstância, gestação, o cinema, ou melhor dizendo, o filme — aquilo que bate na tela — é a coisa mais irrelevante.

 

 

 

 

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